Tendências 2023: O ano das agfin, agbio, agclimate, agdeep e ag ed techs

O AgTech Garage News levanta tendências cross sector com potencial de trazer avanços significativos para o agronegócio

Janeiro 12, 2023

No agro, as soluções demandadas são complexas e combinam a expertise de outros setores (Imagem: AgTech Garage)

Por Marina Salles

As soluções para o agronegócio vêm de dentro, mas também de fora do setor. O agro cobre a cadeia que vai do campo à mesa do consumidor e tem ainda um pé na indústria de vestuário, de produção de energia, pesquisa e desenvolvimento de bioprodutos, apenas para citar alguns exemplos. 

É tão amplo quanto complexo e, por isso mesmo, também demanda do ecossistema de inovação o desenvolvimento de soluções “cross sector”, em que o core da expertise vem de outros mercados, seja o de carbono, das finanças verdes, do mundo da educação. 

Em 2023, o AgTech Garage News levanta as principais tendências para o agronegócio com essa premissa, de que o cruzamento de setores da economia pode proporcionar avanços importantes para esta cadeia de atores que não para de crescer. 

Do produtor rural às revendas, indústrias químicas, de insumos, de energia, de alimentos, segmento de crédito e seguro, veterinária, agricultura, máquinas e implementos, armazenagem, processamento, transformação, embalagem, transporte e logística, educação, muitos são os beneficiados pela tecnologia que permeia o agronegócio e que hoje não vem mais só das agtechs. 

Abaixo, a lista de tendências que compreende também as agfin, agbio, agclimate, agdeep e ag ed techs: 

Mercado de capitais acelera boost das agfintechs

Pergunte para as lideranças das principais agfintechs do Brasil o que esperam para 2023 (é só dar o Play no AgTech Garage Podcast com TerraMagnaTraiveAgroforte e E-ctare) e você vai ouvir: “maior fintechzação do agronegócio”; “surgimentos de novas agfintechs”; “estabelecimento de parcerias junto a bancos, revendas, agroindústrias e produtores”; “ampliação da oferta de crédito temático, com incentivos sociais e ambientais”… E esse sentimento positivo tem sua razão de ser. 

Na safra 2022/23 no Brasil, a demanda por financiamento agrícola no agronegócio ficou na casa de R$ 800 bilhões, de acordo com estimativas do mercado. Enquanto isso, os recursos do Plano Safra no ciclo somaram R$ 340 milhões. A falta de crédito público é um dos fatores que abre espaço para o crescimento das agfintechs, seja através de operações de custeio, comercialização ou investimento.

Fazendo a ponte do agro com os investidores privados da Faria Lima e usando tecnologia de monitoramento de risco, as agfintechs levantam capital de forma ágil e mais barata. O resultado, no fim do dia, é o acesso a taxas de juros mais atrativas pelos produtores demandantes de empréstimo e financiamento no campo. 

Além da demanda crescente por crédito no agronegócio, o surgimento de novos mecanismos de captação financeira são um driver de aceleração da categoria. É o caso dos Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais), instituídos pela Lei 14.130 de março de 2021. 

Entre as vantagens dos Fiagros está a possibilidade de investir em uma série de ativos do agro (CRAs, terras, imóveis rurais) e os benefícios fiscais para gestores e investidores (leia mais). Fontes consultadas pelo Jornal Valor Econômico estimam que a indústria de Fiagro pode chegar a R$ 100 bilhões em cinco anos. Em 10 anos, a expectativa é que alcance R$ 500 bilhões — o que amplia tanto as oportunidades de financiamento ao produtor quanto o acesso a recursos pelas agfintechs e outros atores financeiros do mercado.  

Insumos biológicos em alta com as agbiotechs

No caso das ag biotechs, uma das chaves do crescimento é, sem dúvida, a biodiversidade brasileira, das mais ricas do mundo. Para além das plantas e animais, também há no país grande diversidade de insetos (agentes macro biológicos) e microrganismos invisíveis a olho nu (microbiológicos), capazes de combater doenças do solo e das culturas comerciais — e de impulsionar a produtividade das lavouras. 

Até 2025, a Markestrat estima que o mercado de biológicos no Brasil pode somar R$ 6,2 bilhões, crescendo a uma taxa anual da ordem de 20%. Em 2021, o mercado no país era de R$ 3 bilhões, segundo a consultoria, dividido em quatro categorias: bio nematicidas (40% do total), bioinseticidas (25%), bio fungicidas (13%) e inoculantes (22%).

O último Radar AgTech Brasil 2021/2022, da Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens, apontou um número de 36 startups de controle biológico e integrado de pragas no país. E mais 37 startups do segmento de biodiversidade e sustentabilidade. Entre as essas biotechs, startups como GênicaSoluBio e IdeeLab vêm se destacando, com produtos para a agricultura regenerativa. 

As biotechs trabalham no contexto do manejo integrado de pragas (MIP), que se vale de diferentes tecnologias para combater patógenos (Imagem: Gênica)

Fora a produção de insumos em si, dentro e fora das fazendas, o mercado de biológicos também movimenta um vasto ecossistema de soluções ligadas ao campo prático. É o caso da análise de solo — em que agtechs como a Doroth e a Biome4All apresentam soluções inovadoras. Além disso, engloba a área de pulverização inteligente — da qual agtechs como Perfect Flight e Cromai são expoentes, assim como a Natutec, da Koppert (saiba mais no AgTech Garage Podcast de aplicação otimizada de insumos). 

 

Ag climate techs ditam futuro do agro sustentável

 

Totalmente em sinergia com o momento atual, em que as mudanças climáticas são a pauta chave do desenvolvimento do agronegócio sustentável, as agclimate techs mostram que produtividade e preservação não são palavras antagônicas. Ao contrário, são complementares. Visando reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, as ag climate techs tomaram conta do agronegócio. 

Entre as soluções da umgrauemeio, por exemplo, está um índice de risco de incêndio e um sistema de detecção instantânea que se utiliza de câmeras de alta resolução (Imagem: umgrauemeio)

Entre suas soluções, podemos citar desde sistemas para predição de incêndios em áreas florestais e agrícolas, disponibilizados por startps como umgrauemeio e Quiron, até hardwares que geram insights no campo para a produção mais sustentável, como o robô Solix da Solinftec e o equipamento Mark 3 da Arable. 

Na frente de carbono, o número de soluções cresce a cada dia, com as startups respondendo por diferentes estágios do trabalho de monitoramento, reporte e verificação do sequestro de carbono no solo e nas florestas para a efetiva emissão de créditos no mercado voluntário. Alguns exemplos de ag climate techs que atuam no setor são: BRCarbonRegrow, Salva (antiga Santos Lab), My Easy Farm e Geplant, além do Instituto Ipê (saiba mais no AgTech Garage Podcast sobre tecnologias para manter a floresta em pé).  

A Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO) estima que o agronegócio brasileiro deve ser o responsável por 25% da remoção dos gases de efeito estufa da atmosfera nos próximos anos, o que demonstra o tamanho da oportunidade para as ag climate techs (confira cobertura especial no AgTech Meeting sobre o mercado de carbono). 

 

Ciência pode retomar posição de destaque com ag deep techs

 

A hora e a vez das ag deep techs também está chegando. Startups que investem em ciência e tecnologia, e nascem muitas vezes no ambiente acadêmico, essas startups são essenciais para o agronegócio dar seu próximo salto tecnológico e se tornar cada vez mais orientado a dados & digital. 

Conforme a empresa especializada em integrações de soluções deep tech Emerge, citada pelo site The Shift, a agropecuária está entre os setores mais promissores no Brasil em termos do desenvolvimento de “tecnologias profundas”, ao lado do de alimentos (que também é agro) e saúde. 

Nesse mercado, a startup Mastera tem potencial de ser, quem sabe, a próxima fábrica de deep techs do agronegócio. Voltada à transferência de tecnologia da Academia para o mercado, anunciou recentemente um convênio com a Esalq-USP que promete ajudar a tirar mais pesquisas do papel. A startup opera conectando a demanda de grandes empresas à Academia, para facilitar o acesso a soluções cientificamente testadas e de eficácia comprovada. Além de atender corporações, a Mastera também levanta oportunidades de negócios em bases científicas de forma pró-ativa e dá apoio a pesquisadores que querem se tornar empreendedores.

A Provivi aplica ciência moderna na proteção de cultivos e foi fundada em 2013 pela ganhadora do Prêmio Nobel, Dra. Frances Arnold. Seus co-fundadores são Pedro Coelho e Peter Meinfold (Imagem: Provivi)

Na linha de deep tech, startups internacionais como a Provivi, que tem no cargo de CEO um brasileiro, e Invaio, que já provê soluções para o Brasil, são dois cases mais maduros. A Provivi atua no segmento de controle biológico de pragas usando feromônios sintéticos. Já a Invaio desenvolve tecnologias de aplicação de defensivos com injeções miniaturizadas e novos ingredientes bioativos. 

 

Ag ed techs prontas para ajudar a transformar o agronegócio

 

A máxima de que a “educação deve vir em primeiro lugar” também vale para o agro e as ag ed techs são as startups que preenchem essa lacuna. De acordo com o Cepea Esalq-USP, o agronegócio emprega 20% da população ocupada do Brasil, o equivalente a mais de 19 milhões de trabalhadores. Destes, boa parte se ocupa de funções técnicas e operacionais, demandando atualização constante, principalmente no contexto de transformação digital acelerada na cadeia de ag&food. Em 2022, entre os trabalhadores do agro, 4% não tinham instrução, 40% contavam com ensino fundamental completo, outros 40% com nível médio completo e 16% com ensino superior, ainda conforme o Cepea. 

Mirando o agro, o setor florestal e de construção civil, a ed tech Werkey criou uma plataforma para empresas poderem estruturar trilhas completas de cursos e aprendizado. O foco da startup em setores específicos tem ajudado a construir massa crítica para seu público, formado sobretudo por operadores de máquinas. 

Um dos desafios das ag ed techs é capacitar a mão de obra que atua diretamente no campo (Imagem: John Deere)

Startup de capacitação profissional para a base da pirâmide, que qualificou mais de 1,5 milhão de pessoas desde a fundação em 2012, a Já Entendi é outra ed tech que viu potencial de entrar para o mercado de educação no agronegócio e criou uma spin-off para o setor. Hoje, a Já Entendi Agro atua na capacitação da mão de obra que roda o dia a dia das fazendas, muitas vezes operando equipamentos sofisticados. A empresa tem uma metodologia própria e já ganhou mais de 30 prêmios de inovação, tecnologia e educação. (Para saber mais sobre como a educação tem ajudado a conectar as pessoas à tecnologia não deixe de ouvir o AgTech Garage Podcast sobre o futuro das máquinas agrícolas). 

Contatos

Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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