Maio 13, 2022
Por Marina Salles
A startup de biotecnologia IdeeLab, especializada no desenvolvimento de soluções biológicas para a agricultura, recebeu investimento (de valor não revelado) da Inquima, fabricante brasileira de adjuvantes e produtos para nutrição foliar. O aporte será utilizado para a ampliação dos seus laboratórios e centro experimental, novos desenvolvimentos em P&D e construção de uma biofábrica, em área de 20 mil metros quadrados adquirida recentemente em Piracicaba (SP).
Fundada em 2019, a IdeeLab tem desenhadas duas frentes de negócio: presta serviço de análise do modo de ação de produtos que já estão no mercado e, após o registro de seus próprios bioprodutos, vai atuar também na transferência de tecnologia para produção de insumos com a marca de terceiros. Somados, os dois negócios têm potencial de gerar receita de R$ 1 bilhão em dez anos, segundo a startup. Em agosto de 2020, a IdeeLab recebeu seu primeiro investimento, da venture builder WBGI, e inaugurou um laboratório e centro experimental no Núcleo do Parque Tecnológico de Piracicaba.
O negócio é liderado pelo doutor Ronaldo Dalio e o professor doutor Sérgio Pascholati, do Laboratório de Fisiologia e Bioquímica Fitopatológica da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). Com base no uso da biodiversidade microbiana brasileira, o objetivo da startup é promover a agricultura sustentável ao lado de seus parceiros comerciais.
“No Brasil, existem poucas empresas com a capacidade de inovar e entregar tecnologias já escalonadas no modelo B2B, e a IdeeLab ocupará este nicho. Com a nova biofábrica teremos a oportunidade de oferecer não apenas o desenvolvimento de P&D do produto para nossos clientes, mas também a produção, envase e rotulagem”, diz Dalio. A transferência de tecnologia deve ser feita por meio do pagamento de royalties e a entrada do novo sócio está em linha com esta estratégia.
Pascholati ressalta que mesmo com participação societária na empresa, o Grupo Inquima não terá exclusividade nas inovações desenvolvidas pela IdeeLab, que manterá a independência e relações institucionais diretas com seus clientes. “Temos em nosso DNA o desenvolvimento de inovações e transferência das tecnologias a diversos parceiros. Nas negociações com a Inquima ficou claro que não havia interesse em interferir nesse nosso modelo. Inclusive, já temos contratos nesse sentido em andamento e vamos continuar os oferecendo no futuro, sem qualquer tipo de interferência dos novos sócios”, explica Sérgio Pascholati, presidente e fundador da IdeeLab.
Segundo o presidente do Grupo Inquima, Santiago Fermin Wirsch, o objetivo da parceria é oferecer ao mercado agrícola e, especialmente ao produtor, uma solução integrada para aumentar sua produtividade com foco em produtos inovadores e ambientalmente seguros. “O fato de a IdeeLab ser uma startup focada em inovação e seus profissionais serem extremamente bem preparados, gerou um interesse na Inquima de poder trazer ideias novas para o mercado”, afirma. Hoje, os produtos da Inquima são aplicados em 50 milhões de hectares plantados. A companhia faz parte do Grupo Inquima formado também pelas empresas Intellicrops (de genética vegetal), Brawir (de genética animal) e Alltec Bio (de agroquímicos e com sede na Argentina).
A nova biofábrica da IdeeLab, cuja operação está prevista para começar em julho de 2023, terá capacidade inicial de produzir até 300 mil litros de bioinsumos por ano e deve gerar 50 novos postos de trabalho. Além da biofábrica, a expansão do centro experimental, que contará com área para testes em campo e casas de vegetação, vai demandar a contratação de mais 30 pesquisadores. Assim, o time da Ideelab, que hoje conta com 17 colaboradores, promete somar de 80 a 100 até o fim de 2024. “Entre os profissionais, temos engenheiros de bioprocessos, biólogos, agrônomos e químicos que vão desde níveis iniciais até PhDs”, diz Dalio.
Desde sua fundação, a IdeeLab se consolidou como uma empresa de base tecnológica, que investe em pesquisa, inovação e desenvolvimento. “O foco das nossas inovações está no uso da biotecnologia para aumentar a produtividade vegetal, ativar metabolismo das plantas e sua resistência a doenças”, explica Dalio.
Em uma analogia simples, o trabalho da empresa é encontrar num amplo universo de microrganismos e suas moléculas aqueles que funcionem como “suplementos”, “estimulantes” e “remédios” para as plantas, a fim de estimular que sejam mais produtivas, ativas metabolicamente e resistentes ao ataque de patógenos. Os microrganismos estudados são oriundos dos biomas e regiões agrícolas do Brasil.
A partir daí, os produtos descobertos podem ser divididos em sete gerações: 1ª (um único microorganismo por produto), 2ª (mix de diferentes espécies por produto), 3ª (inclui metabólitos de bactérias e fungos benéficos); 4ª (baseada em peptídeos, proteínas recombinantes e moléculas efetoras), 5ª (com edição genômica via Crispr-Cas para prover a resistência a doenças e estresse hídrico) e 6ª (envolve RNA de interferência para quebra agressividade de patógenos) e 7ª (utiliza de moléculas orgânicas para indução de resistência e ativação do metabolismo vegetal).
No momento, a empresa tem focado parte substancial das pesquisas no desenvolvimento de produtos de terceira e quarta geração. A IdeeLab já tem 12 produtos em fase de registro nas classes de biofertilizantes, inoculantes e biodefensivos. Mas a categoria de biodefensivos é a de maior destaque, com bionematicidas, biofungicidas e bioinseticidas.
A IdeeLab conta com um banco de microrganismos de diversas áreas agrícolas do Brasil (Foto: IdeeLab)