Um resumo do World Agri-Tech South America Summit 2022 (para quem foi e quem não foi)

Plataforma de comercialização de pulses, entre os quais grão-de-bico e lentilha, traça metas para conquistar mercado que gira US$ 51 bilhões por ano

Julho 5, 2022

Por Marina Salles

Pergunte para quem foi ao World Agri-Tech South America Summit o ponto alto do evento e há grandes chances de a resposta ser: o networking. Por isso, para quem foi e para quem não foi ao encontro, que aconteceu de forma presencial em 2022, essa é a chance de conferir o que rolou de mais relevante nos painéis da programação.

Começando pela sustentabilidade...

Depois de abertas as portas do evento, não levou nem um minuto para a discussão se voltar para a sustentabilidade e as mudanças climáticas. Apesar de seu forte desempenho produtivo, a América do Sul precisará se transformar para enfrentar os desafios ambientais, climáticos e sociais, destacou em seu painel solo Julio A Berdegué, Diretor-Geral Adjunto e Representante Regional para a América Latina e o Caribe da Organizações das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Vamos a alguns dados de destaque na apresentação, e ao que o porta-voz da FAO espera que o setor faça a partir deles:

  • Até 2050 será necessário produzir 60% mais alimentos do que hoje para alimentar uma população de 9,7 bilhões de pessoas.
  • Atualmente, 20 milhões de produtores da América Latina + Caribe já produzem comida suficiente para alimentar 1,3 bilhão de pessoas (2x a população da região)
  • A América Latina e o Caribe são responsáveis por 23% das exportações globais de commodities (leia-se soja, milho, algodão, carnes etc)

Julio A Berdegué, Diretor-Geral Adjunto e Representante Regional para a América Latina e o Caribe da FAO

O problema é que o copo está meio cheio, mas também meio vazio"

  • A fome afeta 58,4 milhões de pessoas na América Latina e Caribe (9,1% da população local)
  • Em 2019, 113 milhões de pessoas não tinham recursos financeiros para manter uma dieta saudável
  • A pobreza rural afeta 287,6 milhões de pessoas (44,8% da população local)
  • De 2010 a 2022, foram perdidos 2,6 milhões de hectares de floresta por ano
"Para superar esse cenário, vamos precisar fazer um tremendo esforço de inovação. Eu não acredito que os produtores tenham enfrentado um desafio de inovação deste tamanho em 10 mil anos, desde quando as plantas e animais foram domesticados"

Mas, o que fazer? A mudança não acontece do dia para noite, ele destacou, e depende da tomada de decisão de milhares de pessoas. Nesse sentido, foram elencados seis pilares que podem suportar a transformação da cadeia agropecuária:

1) Aumento nos investimentos públicos e privados em inovação, para dobrar a taxa de crescimento da produtividade na próxima década

2) Redução no trabalho informal em 25% no setor na região em 10 anos (que hoje bate a marca de 80% se considerada a América Latina + Caribe) e erradicação do trabalho infantil

3) Suporte à reformulação das regras para fabricação e comércio de alimentos processados

4) Pausa e reversão do desmatamento até 2030

5) Redução da emissão de metano em 30% até 2030, em comparação com 2020

6) Diminuição de 10% a 15% no uso da água na agricultura nos próximos 10 anos

A meta não é mais fazer do agronegócio da América Latina e Caribe o mais produtivo e financeiramente eficiente, como se queria cem anos atrás. "Os louros agora irão para aqueles que constroem uma agricultura muito eficiente, mas igualmente inclusiva, sustentável e resiliente", segundo Berdegué.

Grandes anúncios

Com os investimentos em inovação e sustentabilidade dando o tom do encontro, empresas de tecnologia aproveitaram a ocasião para fazer anúncios e lançamentos com esse viés. Destacamos três deles: a primeira emissão global, em escala, de créditos de carbono do agro no mercado voluntário pela Indigo nos Estados Unidos; o lançamento do Projeto Pegada Alice pela Solinftec e a chegada ao mercado brasileiro da Grain Chain, que utiliza a tecnologia blockchain para prover contratos inteligentes para o agronegócio.

Novidade Indigo

O potencial do mercado voluntário de crédito de carbono está estimado em US$ 50 bilhões (cerca de R$ 260 bi) até 2030. A Indigo, empresa de tecnologia que desenvolve produtos biológicos e soluções de crédito com o objetivo de promover uma agricultura mais sustentável, gerou sua primeira safra de créditos de carbono agrícola certificados, em escala, por meio do programa Carbon by Indigo.

Ao todo, devem ser emitidos, pela Climate Action Reserve, 20 mil créditos referentes ao sequestro de carbono pela agricultura, a maior emissão desta natureza no setor no mundo todo. O valor dos créditos foi contabilizado em US$ 40 cada (cerca de R$ 207/crédito). O resultado é fruto do trabalho de 175 agricultores, que adotaram práticas favoráveis ao clima, como estratégias de cultivo e plantio direto em mais de 40.500 hectares nas safras americanas entre os anos de 2018 e 2020. Quem conta essa história é Reinaldo Bonacarrere, Diretor Sênior de Biológicos da Indigo para América Latina:


No Brasil, por enquanto, a Indigo oferece uma linha de produtos biológicos inovadores e irá desembarcar, em breve, com seu marketplace de comercialização de commodities. A plataforma de carbono ainda não tem data para chegar ao país.

Novidade Solinftec

Depois de lançar na Agrishow o robô Solix Ag Robotics (que percorre o campo com suas câmeras multiespectrais verificando a sanidade das lavouras) e a inteligência artificial Alice IA (o "cérebro" do Solix), a Solinftec apresenta ao mercado o Projeto Pegada Alice. O objetivo da iniciativa é gerar insights para que o produtor adéque suas práticas de manejo à agricultura de baixo carbono e possa, no futuro, colher os benefícios econômicos de praticar uma agricultura mais sustentável.


Novidade GrainChain

A GrainChain, empresa que oferece soluções que melhoram a rastreabilidade, eficiência e confiabilidade dos dados de commodities ao longo da cadeia de suprimentos, formalizou sua entrada no mercado brasileiro por meio da parceria com a agfintech MasterBarter. Os produtos da startup americana combinam blockchain com internet das coisas (IoT) para criar fluxos de trabalho automatizados e digitalizados. No caso da parceria com a MasterBarter, por exemplo, a tecnologia permite que contratos de barter sejam acompanhados dentro de uma plataforma batizada DigiBarter.

Investimentos em pauta

Como não poderia faltar, o World Agri-Tech South America Summit também dedicou parte da programação a bate-papos sobre investimentos. O contexto foi do enxugamento dos aportes de Venture Capitals (VC) no mundo todo, diante de um cenário macroeconômico instável após a pandemia, com a guerra na Ucrânia, alta da inflação dos alimentos e reajustes nas taxas de juros de vários países.

Tanto no painel das agfintechs quanto no debate entre investidores, a discussão ajudou a trazer alguns contornos do que as agtechs podem esperar por aqui.

No debate dos investidores, o ponto alto ficou por conta das análises de Francisco Jardim, da SP Ventures, e Patricia Moraes, da Unbox Capital.

Perguntado sobre se ainda há dinheiro na América Latina para investir em agtechs, Chico Jardim respondeu que o cenário ainda deve piorar antes de melhorar, mas que o ecossistema de inovação no agronegócio já é muito mais forte do que há 10 anos e que comparações dependem sempre de um referencial. "Hoje tem muito mais agentes investindo em seed, Série A, B e C de agtechs do que em 2011 ou 2012. Claro que está havendo uma retração nos investimentos de VC ante 2020 e 2021, mas já estamos em outro patamar", diz. Além disso, os valuations das agtechs na América Latina, segundo ele, não destoaram da realidade como em outros mercados.

“Os valuations que temos visto em agtechs na América Latina não estão fora do jogo como vimos no Vale do Silício. As precificações se comportaram melhor e não há indícios de que se tenha perdido o controle da 'festa'. Os agentes do mercado não ficaram tão bêbados e, consequentemente, a ressaca não será tão ruim"

A resiliência própria do setor e das empresas da região, que têm que lidar com cenários de hiper inflação em alguns países, também ajuda a atenuar os efeitos da crise atual, na visão de Jardim. Fora isso, o comércio agropecuário é em grande parte dolarizado, ele lembra, o que ajuda a sustentar o mercado. Soma-se ao cenário, o fato de os players da América Latina integrarem um jogo global de comercialização de suprimentos, podendo diversificar os fornecedores de matérias-primas e compradores de commodities.

Em resumo, segundo Chico, a resiliência do setor como um todo, o fortalecimento do Venture Capital ao longo dos últimos anos e os valuations "mais comportados" das agtechs na região vão fazer do ciclo ruim não tão ruim assim. Chico ressalta que os investidores estão puxando as empresas para apresentarem indicadores financeiros positivos nesse momento e atingir pelo menos o break even. Isto é, fazer com que seu faturamento pague as despesas fixas e variáveis.

Patricia Moraes, da Unbox Capital, argumenta que as startups menos impactadas serão aquelas com as finanças sólidas e modelos de negócios estruturados. Ela deixou um recado precioso para os empreendedores:

“Apertem os cintos, revejam seus planos e economizem dinheiro. O mercado vai se recuperar, ainda que seja difícil dizer se nos níveis anteriores. Mas o capital vai continuar fluindo para as grandes empresas, aquelas que têm uma boa solução de mercado e visão de longo prazo"

Inovação aberta: um caminho sem volta

Confira também os highlights do evento no contexto da inovação aberta, que é vista como um caminho claro e sem volta para promover um agronegócio cada vez mais competitivo, inclusivo e sustentável:


Contatos

Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

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