O produtor precisa, e deve, estar no centro das inovações no agronegócio

Para auxiliar nessa jornada, governos, associações, grandes empresas e startups também têm papel importante

Agosto 26, 2021

Por Marina Salles

Já passou da hora de o produtor rural ser colocado no centro da inovação tecnológica no agronegócio. E o sucesso nessa tarefa dependerá não apenas dele, mas de todo o ecossistema. 

Essa foi a principal mensagem do painel “O produtor rural no centro das inovações do agronegócio” do AgTech Meeting, que contou com a participação remota de produtores de Norte a Sul do Brasil. Eles enviaram perguntas para uma mesa composta por integrantes do governo, de associações, grandes empresas e startups.

O papel do Estado na inovação no agronegócio

Direto de Petrolina (PE) e do Sudoeste de São Paulo, respectivamente, os produtores Augusto Prado e Camila Guedes, quiseram saber dos debatedores quais os planos para inserir o produtor rural na nova dinâmica da inovação no agronegócio. 

Em sua fala, Daniel Trento, coordenador de inovação aberta do Ministério da Agricultura, disse que o governo está endereçando tanto o acesso à conectividade no campo quanto a implementação de tecnologias dentro da porteira. 

Sobre a conectividade, destacou que o leilão do 5G, sob responsabilidade da Anatel e do Ministério das Comunicações, vai acontecer neste segundo semestre, com impactos positivos para o agro. Isto porque para poder prover o sinal 5G, as empresas de telecomunicações serão obrigadas a levar a rede 4G para todas as grandes rodovias do Brasil, rotas de escoamento da safra, e também para comunidades com até 600 habitantes, em sua maioria, zonas agrícolas. 

Trento lembrou que a conectividade é o meio, e não o fim para a tecnologia chegar ao campo e que outras medidas de apoio estão sendo tomadas nesse sentido. Um exemplo citado por ele foi o do edital do Programa Agro 4.0, que vai destinar R$ 4,8 milhões a projetos que aplicam tecnologias 4.0.

Nesse edital, os projetos podem ser submetidos pelo setor produtivo, agroindústrias e empresas, usuários de tecnologias em suas unidades, em parceria, ou não, com outras instituições. Para Trento, o papel do Estado é ser um facilitador no universo da inovação e tirar possíveis amarras para que essa roda continue girando.

O papel das associações e cooperativas

Além do governo, o próprio setor produtivo, reunido sob o chapéu de associações e cooperativas, tem o dever de apoiar a transformação tecnológica no campo, na visão de Denis Arroyo, diretor executivo da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana).

Para ele, essas instituições podem funcionar como ponte entre as novas tecnologias e os produtores rurais, exercendo um importante olhar de curadoria. “Saímos de uma Era de escassez de informação, para uma Era de excesso. E isso gera um efeito rebote no produtor que, em vez de avançar para o novo, se apega a tecnologias mais antigas, que lhe geram conforto”, diz. 

Usando outras palavras, Giankleber Diniz, presidente da Ceva no Brasil, endossou o discurso. “Um dos melhores modelos para acessar tecnologia são as associações de produtores, que estão conectadas ao ecossistema de inovação. Porque é mais fácil acelerar a adoção de tecnologia com o risco compartilhado. A gente tem que atacar e se defender em bando”, argumentou.

No AgTech Garage, a Orplana tem experimentado o poder da união na prática. E, segundo Arroyo, a vivência no dia a dia demonstra que esse caminho é acertado. “O produtor não precisa de alguém para escolher marcas ou produtos para ele, esse não é o ponto. Mas precisa de ajuda com os processos de inovação. É isso que temos feito no For Farmers”. O programa, de conexão entre produtores e startups, é realizado pelo AgTech Garage e, no caso da Orplana, patrocinado pela UPL. 

Além da iniciativa em curso com 22 associações de produtores de cana-de-açúcar ligadas à Orplana, o For Farmers já tem outras edições. Uma delas, patrocinada pela Bayer com produtores de uva do Vale do São Francisco. Outra com produtores de grãos, que formaram um grupo independente. Além dessas, mais duas edições devem ser anunciadas em breve. 

O papel das empresas, das grandes às startups

Luis Henrique Veit, Superintendente de Agronegócios do Sicredi, que moderou o painel, destacou algo que, muitas vezes, é esquecido pela cadeia: a necessidade de o produtor estar no centro da inovação, porque é ele que movimenta todos os outros segmentos do agronegócio — leia-se o negócio das empresas de insumos, dos bancos que atuam no setor, dos provedores de tecnologia, entre outros.

“O produtor precisa estar no centro porque ele é a nossa razão de ser, e o desafio de ajudá-lo é de todo o ecossistema. É preciso levar conectividade para o campo, mas também curadoria e soluções com payback”, disse Veit.

Bruno Matozo, CEO da Atomic Agro, acrescentou que as empresas devem pensar em ter um orçamento para se aproximar e ouvir mais o produtor rural, investindo neles como investem em P&D ou marketing. “Essa preocupação com o produtor tem que ser genuína e não apenas uma hashtag nas redes sociais”, defende. 

Do ponto de vista das startups, para Matozo, a aproximação é ainda mais importante, porque pode ser a diferença entre a vida e a morte dos negócios. “Muitas empresas, investidores e agtechs tentam capturar valor no curto prazo ao atender o produtor rural, e isso é errado. Em outros mercados, enquanto você consegue fazer um teste com seu cliente 50 vezes em uma hora, no agro, se muito, você faz dois testes por ano. Um em cada safra”, lembra.

Conhecer a realidade do cliente pode ainda economizar tempo e capital do empreendedor, segundo Matozo:

Tenho propriedade para falar que são as soluções básicas e bem-feitas que funcionam no campo. O empreendedor não precisa dar chute na Lua para atuar no agronegócio"

Sua startup, a Atomic Agro, por exemplo, disponibiliza ao produtor uma rede confiável de troca de informações. Na plataforma da startup, ele acessa o câmbio do dólar, a cotação das commodities no mercado futuro em tempo real, informações climáticas, estimativas de plantio e colheita por regiões e taxas para financiamentos. Em 2020, a startup recebeu um aporte de R$ 3 milhões, liderado pela gestora Capital Lab.

Diante de um painel com tantos insights, Daniel Trento, do Ministério, deixou um conselho que resume bem o espírito do bate-papo: “Para as startups, eu digo: Vá para o campo. Converse com o produtor e faça dele um fã da sua tecnologia. Para os produtores, digo: Vá para os hubs, compartilhe suas angústias e seja pró-ativo”.

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Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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