Crédito e seguro no agro expandem horizontes com apoio das agfintechs

Diversificação das fontes de crédito, com o mercado de capitais, e soluções tecnológicas têm orientado a revolução promovida pelas agtechs

Agosto 30, 2021

Por Marina Salles

As fontes de crédito rural no Brasil vêm se ampliando. Desde que surgiu o crédito rural, em 1965, até o fim dos anos 1970, quando os bancos comandavam esse mercado, muita coisa mudou. As indústrias de insumos ganharam espaço no financiamento da safra a partir dos anos 1980 e, agora, é o mercado de capitais que cresce como alternativa às instituições tradicionais. 

Nesse novo momento, as agfintechs ganham espaço, oferecendo financiamento de forma diferenciada — seja com apelo verde, seja com pacotes de seguro agrícola. De 2016 para cá, o mercado de capitais despertou fortemente para o potencial do agronegócio e usando instrumentos como FIDCs, CRAs e outras modalidades, tem trazido crédito com condições mais razoáveis e volume para aumentar a produção.

David Telio, professor da pós-graduação do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio (IBDA) e Diretor de Novas Estruturas Financeira da TerraMagna, calcula que o agro tenha demandado na última safra 2020/21 R$ 745 bilhões em crédito. Mas, os bancos, públicos e privados, conseguiram suprir apenas R$ 251,2 bilhões desse montante, deixando boa parte da responsabilidade de financiar o setor ainda no colo da indústria, no caso dos insumos, e dos produtores rurais, capitalizados agora diante da alta do preço das commodities. 

O mercado de capitais contribuiu com cerca de R$ 50 bilhões do bolo do crédito rural, segundo Telio, mas a tendência é que em um a dois anos esse valor quadruplique. “Hoje, quando a gente mostra um papel de agro para o investidor, não precisa explicar mais o setor e o risco. Eu acredito que, em mais um ou dois anos, nós vamos sair de R$ 50 bi para R$ 200 bi financiados no agro pelo mercado de capitais, usando as várias ferramentas de títulos e das fintechs", disse durante painel do AgTech Meeting moderado por Marina Salles, head de conteúdo do AgTech Garage News.

Como o crédito está chegando na ponta?

Para exemplificar o papel revolucionário das agfintechs, o painel abriu espaço para a apresentação de cases de três empreendedores. Bernardo Fabiani, da TerraMagna, descreveu o case da startup junto à indústria de defensivos FMC para auxiliar no financiamento de insumos. Marcell Salgado, da E-ctare, apresentou o trabalho que vem desenvolvendo com outras startups para usar o rebanho, de produtores de corte e de leite, como garantia na oferta de crédito. Barbára Sentelhas, da Agrymet, contou sobre a parceria da sua startup com a consultoria em gestão de risco e seguros Horiens, para oferecer no Brasil os seguro probabilístico e paramétrico. As modalidades, ainda pouco difundidas no país, têm potencial para engrossar a massa tímida de 10% da área produtiva segurada no Brasil, contra cerca de 90% nos EUA.

Case TerraMagna

Lembrando que a indústria de defensivos tem papel relevante no financiamento dos insumos ao produtor, Bernardo Fabiani, da TerraMagna, contou que a parceria da startup com a FMC visa justamente terceirizar parte disso para o mercado de capitais. Em fase piloto, a iniciativa garantirá o financiamento de R$ 100 milhões em insumos agrícolas na ponta nesta safra 2021/22. 

Usando satélites, inteligência artificial e diferentes bases de dados, a TerraMagna faz a ponte entre o agronegócio, via direitos creditórios, com investidores, e permite que títulos referentes ao financiamento agrícola possam ser antecipados. A tecnologia da agfintech avalia a capacidade produtiva das lavouras e os riscos agronômicos, climáticos e de crédito associados às operações.

“Isso tem um benefício muito claro para a FMC, que consegue, além de realizar suas vendas à vista, transferir seu risco, deixando de ser um banco do agronegócio”, diz Fabiani. 

Para o distribuidor de insumos, cliente da indústria, esse tipo de operação permite ainda baratear o custo do insumo, por conta das condições de crédito oferecidas pelo mercado de capitais, e incrementar seu limite de compras, que passa a não depender mais do balanço da indústria.

Na operação com a FMC, a compra conjunta de fertilizantes e defensivos é outra vantagem prevista para uma parcela dos financiamentos e beneficia, claro, o produtor rural, que também conta com apoio da consultoria Markestrat nesse projeto para a escolha do seu pacote tecnológico.

Por fim, há benefício também para o investidor, segundo Fabiani, que passa a poder se expor, com segurança, a uma das atividades mais rentáveis no Brasil, a agricultura. 

O empreendedor lembra que, ainda hoje, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) são emitidos mais comumente para captação de crédito por grandes companhias ou pelo setor sucroalcooleiro e que a emissão atrelada à agricultura, especialmente à produção de grãos, é, de certa forma, novidade. Com o Fiagro, parente dos FIIs (do ramo imobiliário), a expectativa é que o financiamento do agronegócio via mercado de capitais cresça cada vez mais. 

Case E-ctare

Quem também faz uso de instrumentos financeiros para oferecer recursos desburocratizados ao setor, é a startup E-ctare, que tem se especializado no mercado pecuário, de corte e leite, além do café. Marcell Salgado, CEO da E-ctare, diz que percebeu uma oportunidade porque o segmento vinha sendo deixado de lado. 

“Toda vez que você leva informação, leva uma demanda por crédito na pecuária, porque o produtor está habituado a criar os bois e as vacas dele com um método mais tradicional. Por isso, não adianta só orientar sobre a construção de um confinamento, para o gado de corte, ou propor a instalação do compost barn, a coqueluche do mercado de leite”, diz. 

Quando a proposta é de intensificação e ganho de produtividade na pecuária, Salgado reforça que a tecnologia precisa vir acompanhada do crédito, o que estava em falta no mercado. 

Segundo ele, o crédito da E-ctare, levantado também no mercado de capitais, sai de uma maneira simples por conta da parceria com outras startups, que monitoram a atividade do produtor rural e permitem monitorar o risco da sua atividade. 

Um exemplo de parceria, é a que a E-ctare fez com a Cowmed, em que dá crédito para a compra de coleiras capazes de acompanhar a saúde das vacas no dia a dia da produção leiteira. “O produtor põe a coleira no animal para monitorar o cio, seu bem-estar, sanidade, mas ela também gera indicadores que vão facilitar seu acesso a crédito. Assim, o rebanho passa a ser a garantia do produtor de leite que concorda em fornecer esses dados para a gente enxergar mais a fundo a atividade dele”, explica. 

Com a Pecsmart, que faz o monitoramento de granjas de avicultura e suinocultura, a lógica aplicada é a mesma. Também com a JetBov, que faz a gestão de fazendas de pecuária de corte. E com a Leigado, que gerencia fazendas de leite. 

“A gente consegue levar dinheiro mais barato para o produtor quando ele tem esse gerenciamento da propriedade, e quando ele nos permite ter acesso aos dados”, reforça Salgado. E é, justamente, essa transparência nas informações e no cálculo do risco que tem atraído um interesse maior do mercado de capitais, de acordo com o empreendedor. 

Case Agrymet

Especializada em agrometeorologia, a Agrymet está dando um passo para ampliar seu porfólio e criar soluções também para o mercado de seguros usando a tecnologia. “Nosso carro chefe é o Agrymax, uma plataforma de monitoramento e gerenciamento de dados, que nos permitiu gerar um banco de dados muito robusto. E ele acabou sendo atrativo não apenas para o produtor, mas para toda a cadeia, incluindo o setor de seguros”, conta Bárbara.

No caso específico da parceria com a Horiens, a necessidade veio da demanda de um cliente em comum, a Atvos, gigante do setor de cana-de-açúcar, que na última safra demandou da consultoria uma proposta de seguro mais aderente à sua realidade. “Sabendo que essa não era uma particularidade da Atvos, mas do mercado, decidimos ajudar a construir um produto novo junto à Horiens", diz Bárbara.

Segundo ela, a penetração do seguro rural no Brasil é baixa justamente porque faltam dados climáticos consistentes para precificar o seguro rural caso a caso. Sem isso, as seguradoras balizam o preço por cima, e os produtores preferem se arriscar a contratar o seguro.  

O seguro paramétrico, como o que está sendo desenvolvido pelas duas empresas, é uma modalidade baseada em um gatilho, um indicador, que quando é atingido permite acionar a cobertura.

“A gente criou um modelo 100% customizado para a Atvos, e que podemos fazer para qualquer outro cliente, pelo qual conseguimos identificar e quantificar o efeito do parâmetro escolhido na produtividade, para precificar a apólice de seguros”, explica Bárbara. No momento, a solução está sendo validada no mercado. 

“Nosso objetivo é ser uma ponte entre o segurador e o segurado, para que todo mundo esteja confortável com o seguro. O segurado, com o que ele está pagando. A seguradora, com o risco que ela está correndo ao fechar determinada apólice”. Num contexto de mudanças climáticas, já é sem tempo que haja crédito disponível para o produtor rural incluir o seguro agrícola em seu pacote tecnológico.

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Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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