Janeiro 7, 2022
Por Marina Salles
O mercado brasileiro de crédito rural gira por ano cerca de R$ 700 bilhões para colocar de pé as principais safras do país, uma oportunidade e tanto para quem está na ponta emprestando recursos. Um terço desse financiamento vem hoje dos bancos públicos e privados e outra parte recai sobre o balanço da indústria de insumos e os produtores rurais capitalizados.
Na missão de facilitar o acesso a crédito e desburocratizá-lo, as agfintechs estão despontando no Brasil e acessando o investidor disposto a colocar seu dinheiro no agro direto via mercado de capitais.
Abaixo, elencamos os principais fatos que demonstram a confiança depositada nessas startups, mais do que prontas para transformar o crédito rural do país.
Em 2021, o mercado brasileiro ganhou uma nova agfintech, a A de Agro (antiga Agronow). A projeção é que a startup movimente cerca de R$ 1,8 bilhão nas safras 2021/22 e 2022/23 intermediando a concessão de crédito dos seus parceiros — como o banco BTG.
Rafael Coelho, CEO da A de Agro
Além de fazer análises de risco usando inteligência artificial, a fim melhorar as condições do crédito ofertado ao produtor, a empresa anunciou recentemente um portfólio estendido com uma solução de análise das conformidades ESG (social, ambiental e de governança) para o agronegócio. O sistema vai ajudar os produtores rurais a obterem financiamentos mais justos.
Sediada em São Paulo, capital, a A de Agro planeja expandir sua presença no Brasil em 2022, abrindo filiais no interior do Estado e no Centro-Oeste. A equipe, de 40 pessoas, poderá ultrapassar a marca de 100.
O ano também foi de virada para a Traive, que recebeu investimento de US$ 17 milhões liderado pelas gestoras paulistas SP Ventures e Astella Investimentos em outubro. Antes do apagar das luzes de 2021, anunciou ainda uma parceria com a Syngenta, que resultou na captação de R$ 800 milhões via Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) para financiar compras de insumos agrícolas.
Fabricio Pezente, co-fundador e CEO da Traive
O desenvolvimento da solução levou cerca de um ano e foi acelerada pelo aporte, que trouxe para dentro da agfintech um time especializado e infraestrutura própria. A estruturação 100% digital preparada sob medida para a Syngenta vai servir de molde para a Traive atender novos clientes, como revendedores, cooperativas e outros agentes ligados ao sistema de produção de commodities. O novo modelo de oferta de crédito representará ao menos 50% do faturamento da agfintech projetado para os próximos cinco anos, segundo Fabrício Pezente, CEO da Traive.
No mercado brasileiro desde 2017, a TerraMagna segue crescendo entre distribuidores de insumos e produtores rurais em busca de crédito ágil e competitivo. Em 2021, a startup intermediou mais de R$ 500 milhões em antecipação de recebíveis com distribuidores parceiros, quase 10 vezes mais do que o registrado em 2020.
Rodrigo Marques e Bernardo Fabiani, fundadores da TerraMagna
Em um único projeto, com a Markestrat e a FMC, a TerraMagna foi uma das startups escolhidas para facilitar o acesso a R$ 100 milhões em crédito para compras de defensivos e fertilizantes. Em outro, com a Agrogalaxy, ajudou a diminuir em até 60% a inadimplência da rede de revendas no primeiro quadrimestre de 2021.
Com um time qualificado para estruturar operações financeiras, em apenas quatro meses desde a criação do Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro), a TerraMagna já levantou R$ 200 milhões no mercado para financiar compras de insumos por esta modalidade. Em 2022, a grande aposta será neste modelo e nos Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) para captação de recursos.
Conhecida pelos seus produtos de crédito e a plataforma de análise de risco AgRisK, a Nagro deu mais um passo em 2021 para continuar ampliando sua atuação. A empresa captou no mercado R$ 64 milhões em rodada pré-serie A, que inclui recursos vindos de um Fiagro gerido pela Kardinal e administrado pela Vórtx (R$ 58 milhões). O restante (R$ 6 milhões) foram aportados na empresa por investidores pessoa-física.
Gustavo Alves, CEO da Nagro
Em 2021, a Nagro concedeu mais de R$ 250 milhões em crédito para o agro, atendendo 1,5 mil produtores. Em 2022, a oferta de crédito e o número de produtores atendidos prometem saltar para R$ 360 milhões e 10 mil, respectivamente. Para o médio prazo é esperada a entrada da agtech em novas frentes, como de seguros, conta digital e serviços para o produtor nas áreas de gestão e educação.
Carlos Mascarenhas, Felipe d'Ávila e Gustavo Andrade, sócios na Agroforte
No ramo da produção animal, também não faltaram boas notícias. O ano foi de expansão das atividades da Agroforte, que atende sobretudo produtores integrados a agroindústrias de aves, suínos e leite. Em 2021, com parcerias junto a empresas do Sul e Sudeste, a Agroforte iniciou a estruturação de um FIDC de R$ 100 milhões que deve beneficiar em torno de 2,5 mil produtores.
Marcell Salgado e Fernando Alvarenga, sócios-fundadores na E-ctare
Já a E-ctare estabeleceu, entre outros projetos, uma parceria com a Confederação de Agricultura Familiar do Brasil (Conaf) para financiar a compra de gado por pequenos produtores familiares para engorda em Alagoas. O montante inicial a ser emprestado é de R$ 2 milhões, e pode chegar a R$ 200 milhões no médio prazo e atender até 3 mil produtores. As operações da E-ctare seguem em ritmo acelerado. Em setembro de 2021, a startup recebeu um aporte de R$ 600 milhões do Alfa Collab, programa de inovação aberta do Conglomerado Alfa.
Apesar de ser relativamente nova no mercado, foi fundada em dezembro de 2020, a Agrolend também tem garantido seu destaque. Em fevereiro de 2021, recebeu investimento de R$ 9,8 milhões em rodada com 30 participantes, entre eles a Continental Grain e as gestoras SP Ventures, Barn Investimentos e Provence Capital. Em outubro, a injeção foi ainda maior, de R$ 40 milhões, via FIDC, garantindo a entrada do Itaú Asset, Verde Asset e Augme no negócio.
Os irmãos André (esq.) e Alan (dir.) Glezer, ao lado da também sócia da Agrolend Valeria Bonadio
Desde setembro de 2021, a Agrolend tem autorização do Banco Central para operar como Sociedade de Crédito Digital e emprestar dinheiro direto para o produtor rural, o que é um diferencial no mercado.
Seu foco são os pequenos e médios, que podem acessar crédito para custeio da safra sem garantia real. No ano passado, com cerca de 300 clientes, a carteira da startup bateu os R$ 40 milhões. Em 2022, a expectativa é crescer dez vezes e atingir os R$ 400 milhões, de acordo com o co-fundador Alan Glezer.