Fevereiro 16, 2022
Por Vitor Lima*
Como você reagiria diante de uma investida assim: “Essa sua ideia não vai dar certo, é impossível”. Alguns talvez tivessem desistido do objetivo de criar um algo ao mesmo tempo saudável e saboroso. Mas Fábio Neto, co-fundador e CEO da mineira Yamo, preferiu persistir.
Para alegria das crianças que pedem doce às mães depois da hora do almoço, ele chegou na receita do que gosta de chamar “sorvete impossível”, que substituiu todos os ingredientes base da sobremesa original por produtos vegetais. O resultado, segundo Neto, é um produto feito para o consumo “dia sim, dia sim”.
Presente em mais de 200 pontos de venda, a Yamo atende redes como Hortifruti Natural da Terra, GPA e Mundo Verde, e vislumbra um crescimento acelerado. Para 2022, a meta é crescer 500% em faturamento ante 2021 (a startup não abre a receita), expandir a penetração no Brasil e engatar uma rodada de Série B. Desde a fundação em outubro de 2020, a startup já captou R$ 4,5 milhões com investidores.
Em janeiro de 2021, protagonizou uma rodada de R$ 3 milhões liderada pelo investidor-anjo Ricardo Rocha, atualmente Head da Plataforma de Vendas da LuizaLabs, laboratório de tecnologia e inovação do Magazine Luiza.
No pipeline de delícias, a foodtech já tem programado o lançamento de “leites” de inhame e castanha (sabor original e chocolate), além de snacks doces de 6 sabores diferentes.
“O mercado de plant-based tem muito potencial e há muito espaço de crescimento, porque faltam no mercado produtos que sejam ao mesmo tempo sustentáveis, saudáveis e saborosos; que devem ditar o futuro da nossa alimentação”, argumenta o CEO da Yamo.
Julian Mellentin, da New Nutrition Business, consultoria inglesa especializada na indústria de alimentos e bebidas, lembra que o leite vegetal, que inspira muitos novos negócios hoje, começou a ganhar espaço primeiro nos EUA ainda no final da década de 1990. “Mas não era por uma questão de saúde”, disse em evento do Dairy Vision, promovido pelo Milk Point.
Amêndoa tem sido o motor do crescimento do mercado de leite vegetal nos EUA desde 2007 (Fonte: New Nutrition Business)
Segundo Mellentin, o leite vegetal atraiu novos olhares quando saiu das prateleiras genéricas do supermercado para ficar lado a lado do leite de origem animal. “Isso facilitou, e muito, a escolha pelo leite de soja, na época o mais comum, fabricado pela empresa Silk”, afirma. Mais tarde, em 2007, o lançamento do primeiro leite de amêndoas no mercado americano explica o segundo salto no gráfico e a conquista de novos consumidores. Até hoje, o leite de amêndoas é o preferido dos americanos entre os leites vegetais (e responde por 70% das vendas). Depois dele, o leite de aveia também encontrou seu espaço de crescimento por volta de 2017.
Em termos gerais, nos EUA, os leites vegetais respondem por 15% em valor e 7% em volume das vendas totais de leite (incluindo, claro, o de origem animal). No Brasil, estima-se que, em valor, o mercado de leite vegetal corresponda a 1,5% do total, com 70 marcas em atividade.
No caso da tecnologia da Yamo, desenvolvida para fabricação de sorvetes, a troca da lactose se deu pelo leite de inhame, a da gordura animal pelo tahine (uma pasta de sementes de gergelim) e a dos açúcares refinados pelas frutas in natura. A peça-chave para a textura? Um composto nutricional chamado yamina, obtido do inhame e que é considerado um superalimento, capaz de fortalecer o sistema imunológico, gerar benefícios ao coração e aos processos digestivos, segundo Neto.
Nessa receita, o tahine agrega ainda propriedades anti-inflamatórias e beneficia o sistema nervoso central, de acordo com o empreendedor. Enquanto as frutas frescas são usadas para garantir a doçura, acidez e diversificar os sabores dos sorvetes de massa e dos picolés. Hoje, a Yamo oferece 9 opções de sorvetes, fabricados com produtos que vão do açaí às frutas vermelhas, entregues diretamente por pequenos produtores parceiros.
“Em comparação ao produto tradicional, temos 2x mais proteínas, 1,5x mais fibras, 3x menos gordura, 20% menos carboidrato e 10x menos sódio”, afirma Neto. “O inhame traz também vitaminas do complexo B e minerais como cálcio, ferro e fósforo”, diz.
Fabio Neto, CEO e co-fundador da Yamo (Foto: Yamo)
Batizada de Nude em nome da transparência, a foodtech de leite de aveia fundada pelo casal Alexander Appel e Giovanna Meneghel fez barulho nas últimas semanas após receber um aporte de R$ 25 milhões, o que levou seu valuation a R$ 125 milhões. A rodada de Série A foi liderada pela Vox Capital.
Expondo sua pegada de carbono já nas embalagens, a Nude trabalha com a transparência de ponta a ponta na cadeia (Foto: Nude)
Capitalizada, a foodtech se prepara agora para “ganhar escala promovendo novos hábitos de consumo para uma economia de baixo carbono”, nas palavras de Appel, co-fundador e diretor de operações da Nude.
Para dar conta de atender ao consumidor, cada vez mais exigente, a empresa garante a rastreabilidade dos seus mais de 250 fornecedores, e conduz um programa de boas práticas agrícolas e rastreamento da produção durante e depois da safra. Os fornecedores da Nude integram a rede de parceiros da SL Alimentos, empresa paranaense da família de Giovanna que processa cereais.
Hoje, a Nude consegue aferir também que sua produção de leite vegetal é carbono zero, graças à auditoria da consultoria sueca CarbonCloud, que calcula a pegada de carbono de empresas do setor alimentício, e do programa ambiental brasileiro Amigo do Clima. O programa apoia empresas, organizações, eventos e pessoas estimulando-os a compensarem suas emissões de Gases de Efeito Estufa voluntariamente.
Em expansão, a foodtech prepara novas linhas de produtos. A que chegou mais recentemente ao mercado é a linha dedicada aos baristas, para uso de cafeterias no preparo de cappuccinos e outras bebidas. Atualmente, a Nude já está presente em mais de 500 cafeterias pelo país.
Levantando as bandeiras da gastronomia molecular e da ciência de alimentos, a foodtech NoMoo aplica tecnologia para desenvolver produtos que, mesmo sem leite, se propõem a oferecer características sensoriais semelhantes às dos lácteos usando a castanha de caju.
Marcelo Doin e Nathalia Pires, CEOs e co-fundadores da NoMoo (Foto: NoMoo)
Com R$10 milhões já captados em rodada Série A, liderada pela gestora de private equity DXA Invest e com aporte do fundo de Venture Capital focado no mercado de plant-based Lever VC, a NoMoo se prepara para sentar à mesa com investidores mais uma vez, em uma rodada de Série B.
A nova injeção de capital, quando vier, será direcionada a dobrar o leque de produtos da foodtech, elevando a oferta total para 28 opções. Por enquanto, seus carros-chefes nas gôndolas são o queijo mussarela, requeijão e maionese. A nova linha será focada em bebidas e iogurtes vegetais que independam da cadeia refrigerada, com validade que passa de um ano.
A foodtech já atua em todos os Estados do Brasil e tem um projeto de internacionalização em andamento para os Estados Unidos e Portugal. O próximo passo, previsto ainda para 2022, é entrar na Ásia e Oceania.
Pelo menos no Brasil, o crescimento já tem margem de sobra para acontecer. Num espaço de 2 mil metros quadrados inaugurado este ano no Rio de Janeiro, a NoMoo é capaz de produzir 1,2 mil toneladas por mês de produtos acabados, volume que deve ser atingido, na prática, em 3 a 5 anos.
*Com edição de Marina Salles