Com a gestão dos prazos de validade, foodtechs reduzem o desperdício de alimentos em até 90%

Soluções voltadas para a indústria de alimentos e supermercados são a esperança para a redução dos alimentos próprios para o consumo que são jogados no lixo

Abril 4, 2022

Por Vitor Lima*

As crises econômica e política, reforçadas pela pandemia de covid-19, levaram, segundo estudos da Rede Brasileira de Pesquisas em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pessan), 116,8 milhões de brasileiros a passar por alguma situação de insegurança alimentar nos últimos dois anos. Destes, 43,4 milhões de pessoas (20,5% da população nacional) não tiveram acesso a alimentos em quantidades suficientes, passando por insegurança alimentar moderada, e 19,1 milhões (9% da população brasileira) passaram fome. Nesse cenário, as discussões sobre a necessidade de aumentar a produção de alimentos e, principalmente, reduzir o desperdício, na indústria, distribuição e rede de varejo, ganham relevância no universo das foodtechs.

Neste sentido, o trabalho da startup brasileira SuperOpa, que faz delivery de alimentos que fogem das normas de validade tradicionais, e o da joint-venture sueca WhyWaste, que tem soluções para gestão do vencimentos de produtos nas gôndolas dos supermercados, podem contribuir (e muito!) para reduzir o desperdício de alimentos no Brasil. As soluções tiram proveito das falhas identificadas tanto durante as negociações entre fornecedores e varejistas, quanto da organização dos supermercados.

A ferramenta da SuperOpa, que é um aplicativo, tem capacidade para salvar até 18 milhões de toneladas de alimentos (44% do que é descartado diariamente), o suficiente para alimentar 6 milhões de pessoas. A startup também identificou que a solução atende outros dois interesses do mercado: a preocupação com a sustentabilidade da cadeia e o bolso dos consumidores finais.

Luis Borba, CEO da SuperOpa, contou que a empresa realizou uma pesquisa para identificar as propensões dos consumidores e os dados coletados foram bastante convincentes. “Queríamos avaliar a inclinação dos consumidores a comprar alimentos que estivessem mais próximos da data de vencimento [em comparação com produtos convencionais]. Os resultados mostraram que 75% dos entrevistados comprariam estes produtos se estivessem mais baratos, enquanto 25% o fariam se fosse para impedir o desperdício”, disse.

Do descarte da indústria à mesa com desconto 

No Brasil, as normas das indústrias de alimentos impedem a comercialização de produtos fora de prazos pré-determinados de validade. Cervejas com quatro meses até a expiração de sua data de validade, por exemplo, mesmo que tenham condições normais de consumo, não podem ser comercializadas. Com as novas tecnologias, elas iriam diretamente para a mesa do consumidor com preços mais atrativos.

Hoje, cerca de 72% do desperdício de alimentos ocorre antes mesmo de os alimentos chegarem na casa dos consumidores. Isso porque as perdas podem ocorrer na distribuição, por falhas no armazenamento, transporte ou conservação. E é exatamente nesses pontos de ineficiência que a solução da SuperOpa atua: sem intermediários, alimentos e bebidas vão direto para a casa do consumidor final. Com essa logística, os produtos podem ficar até 70% mais baratos. 

A proposta de negócios da SuperOpa une a economia, tanto para o fornecedor quanto para o consumidor, à mitigação do desperdício de alimentos (Foto: SuperOpa)

Para usar a solução, o cliente faz o download do aplicativo e realiza um cadastro informando sua localização. A plataforma identifica, então, se o consumidor está em uma das mais de 500 cidades atendidas pela SuperOpa, entre os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. 

A chave está no entendimento de que, quanto mais próximo da data de vencimento o produto estiver, maior será o desconto aplicado. Borba conta que, dentre os mais de 11,2 milhões de pedidos feitos em 2021 (quatro vezes mais que em 2020), cerca de 20% são de itens com o selo Opa. A marca chancela que o produto foi classificado, ou com prazo de validade mais próximo da expiração ou fora do padrão estético, além de estar com valor promocional. Os  descontos são progressivos e chegam a até 70% do valor original praticado nas gôndolas.

De acordo com a SuperOpa, além de alimentos, outros produtos são comercializados na plataforma, como itens de higiene ou cosméticos. A tecnologia 100% automatizada da SuperOpa busca atender públicos mais sensíveis a preços, como as classes C, D e E. Até o momento, segundo a empresa, foi evitado o desperdício de mais de 200 toneladas de alimentos em 2021. A meta para 2022 é chegar a mil toneladas de comida “salvas”.

Em resultados, a geração de valor é significativa para os dois lados da cadeia. A SuperOpa ajudou na economia de mais de R$ 2,6 milhões pelos consumidores nos últimos dois anos. Entre os fornecedores, que evitaram o descarte de alimentos, a economia chegou a R$ 3,2 milhões em 2021.

A nova carta na manga da empresa foi a inauguração, no começo deste ano, de um centro de distribuição localizado na região metropolitana de Campinas (SP), com capacidade para receber até 6,5 mil toneladas de alimentos por mês. 

WhyWaste, gestão de vendas fora do tradicional

A SuperOpa atende os consumidores finais a partir da indústria. Já a sueca WhyWaste entende que o desperdício de alimentos também pode ser reduzido pela melhoria da eficiência logística nas redes de varejo. O modelo de negócios da startup europeia usa a inteligência de negócios como base da sua solução, e faz a gestão da venda de produtos que se aproximam do vencimento gerando um fluxo de redução de perdas.

Presente em mais de 18 países, da Europa, Ásia, América do Sul e Oceania, a WhyWaste tem cases de sucesso como o da Eurospar, rede de conveniência que foi premiada como a mais sustentável da Inglaterra ao registrar redução de 90% no desperdício de alimentos, e da brasileira Serra Azul - premiada no varejo como um dos cinco melhores cases de prevenção de perdas do Brasil, em 2021, pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe).

Com a inteligência artificial aplicada no sistema de gestão das lojas, a WhyWaste faz com que os produtos, expostos nas gôndolas dos supermercados acusem, por meio de alertas, que estão entrando em data crítica para a comercialização (começando quando faltam 20 dias até sua expiração). Então, é feita uma solicitação de rebaixamento, que impõe uma nova precificação calculada de forma automatizada pela tecnologia, já considerando o desconto baseado no shelf life (tempo de prateleira) restante.  

Ricardo Salazar, Gerente Geral da WhyWaste no Brasil, falou sobre o conceito. “Nós criamos a venda incentivada a partir do ajuste da precificação dos produtos, com o objetivo de reduzir as perdas de alimentos que ainda estão próprios para o consumo”, conta. 

O crescimento da WhyWaste têm superado as expectativas dos mais otimistas dos empreendedores. Depois de terem começado o ano de 2021 com a ferramenta instalada em apenas duas lojas, Salazar passou o Natal do mesmo ano vendo a tecnologia em mais de 200 estabelecimentos. Até abril deste ano, o número já dobrou. A meta para 2022 é chegar a mil lojas conectadas à plataforma.

O valor gerado supera a redução de perdas de produto por validade e passa também pelo ganho de eficiência operacional. Antes das redes contratarem o serviço sueco, era necessário que, em média, três colaboradores passassem por todas as sessões do estabelecimento para checar a data de validade de cada produto e identificassem aqueles com risco de perdas. O processo que sem a tecnologia demandava duas horas de serviço por dia, com a solução, toma 10 minutos de um único colaborador, responsável por acessar o sistema e etiquetar o produto com o novo valor sinalizando as condições de consumo.

Salazar conta que cerca de 2% dos produtos dos mercados necessitam desta gestão todos os dias - o que representa entre 200 e 300 produtos, em média. Quando os produtos são identificados com a assertividade da WhyWaste, os casos de perdas são reduzidos em até 80%.

Ricardo Salazar, Gerente Geral da WhyWaste no Brasil

Regulação do setor

Uma das maiores barreiras de entrada de startups como a SuperOpa e WhyWaste no Brasil é que, para as empresas, incinerar ou descartar alimentos vencidos ou próximos do vencimento em aterros sanitários ainda é mais barato do que fazer sua gestão precoce. Segundo Salazar, na Europa, as empresas devem, por determinação legal, pagar para descartar alimentos. “Acredito que os atores (varejo, distribuidores, indústrias, governos e clientes) precisam se conscientizar que os benefícios de reduzir o desperdício superam, e muito, a prática conveniente de descartá-los”, disse Salazar. 

O gerente da WhyWaste argumenta que um modelo atraente para o Brasil poderia ser baseado no movimento português “Unidos Contra o Desperdício”. Nele, os atores do setor de alimentos “interagem juntos para levantarem soluções bottom-up de melhores políticas, regulações ou incentivos para a redução do desperdício”, diz. 

Por aqui, a Lei 14016/20 permite a doação apenas de alimentos dentro do prazo de validade. Tanto a SuperOpa quanto a WhyWaste operam, no final de sua cadeia de processos, com doações. Uma vez preservada a segurança dos alimentos, o objetivo é ajudar a garantir a segurança alimentar. 

*Com edição de Viviane Taguchi

Contatos

Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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