7 macrotendências da bioeconomia mostram potencial do Brasil nas cadeias de ag&food

Com biodiversidade ímpar no mundo e um ecossistema de inovação maduro, país tem tudo para ser referência em sustentabilidade

Maio 9, 2022

Por Vitor Lima*

A inovação nas cadeias do agronegócio e do setor de alimentos tem, cada vez mais, sido pautada por três princípios: sustentabilidade, economia circular e de baixo carbono. Mas disso depende um novo modelo de produção e é aí que entra a bioeconomia, segundo Bruno Brasil, Secretário de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa. Durante a Jornada de Aprendizagem promovida pela área de Learning Experience do AgTech Garage, ele explorou as 7 macrotendências da bioeconomia para o mercado brasileiro.

O pesquisador explica que a bioeconomia olha para a produção buscando recursos renováveis e menor geração de resíduos, questionando a suposta dualidade entre o progresso e a produção sustentável. A bioeconomia propõe que eles sejam complementares, não antagônicos. No dia a dia, isso se reflete em novas bases para acordos comerciais e o direcionamento de recursos do mercado financeiro.

A bioeconomia é um modelo de produção industrial baseado no uso de recursos biológicos. O objetivo é oferecer soluções para a sustentabilidade dos sistemas de produção com vistas à substituição de recursos fósseis e não renováveis"

O Brasil, detentor de um dos maiores espectros de riquezas naturais do planeta, já pode ser colocado como agente central da bioeconomia. Afinal, o mundo espera que o país seja neutro em carbono até 2050 e mantenha o destaque na produção de alimentos.

Vamos, agora, aos desafios e oportunidades para chegar lá: 

1 - A bioeconomia dos bioinsumos

Dentre os setores que mais crescem no mercado agro está o de bioinsumos, que vai atraindo cada vez mais adeptos no campo pela sua efetividade.  

Inoculante ajuda na solubilização do fosfato (Foto: Ivan Andrade/Embrapa)

Um levantamento da Spark Inteligência de Mercado mostrou que os bioinsumos representaram R$1,7 bilhão em negócios no mercado brasileiro na safra 2020/2021, 37% a mais do que o comercializado no ciclo produtivo anterior. 

Com o avanço das pesquisas, está claro que sua combinação com os defensivos químicos é uma tendência inexorável e que o manejo integrado de pragas (MIP) veio para ficar. Apenas para citar um exemplo no Centro-Oeste, os bioprodutos já estão presentes em 16% da área cultivada com soja, 42% da área de feijão e o número chega a 96% em lavouras de algodão.

Na categoria, entram os inoculantes (que ajudam a fixar o nitrogênio da atmosfera no solo); os biopesticidas (solução complementar aos químicos tradicionais) e os bioativos (compostos com propriedades farmacêuticas, nutracêuticas ou cosméticas).

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento regularizou, em 2021, a produção dentro da fazenda, que permite aos agricultores multiplicarem os bioinsumos por conta própria. A expectativa é que a decisão incentive sua adoção.

2 - Dos recursos biológicos, com a Amazônia em destaque

Modelo totalmente sinérgico com a bioeconomia, os sistemas agroflorestais são o pilar para o crescimento do sistema produtivo na Amazônia. A rica biodiversidade encontrada no bioma favorece o cultivo de espécies nativas como o açaí, cacau, cupuaçu, castanha e mel, pelo microclima formado com o sombreamento da copa das árvores.

No Pará, a produção de cacau ganha destaque e já é maior do que a da Bahia, onde vinha sendo produzido historicamente. Em 2020, a produção paraense foi de 144,7 toneladas, o equivalente a 52% da produção nacional. Já no ano de 2019 o Pará produziu 130 mil toneladas contra as 105 mil produzidas na Bahia, que segue na vice-liderança.

O cacau é uma das culturas mais adaptadas aos sistemas agroflorestais e tem despontado no Pará (Foto: Canva/Holiet)

Segundo Carlos Nobre, cientista brasileiro reconhecido pelos estudos sobre o aquecimento global, o potencial do bioma amazônico está ainda naquilo que não se conhece dele. Na visão de Bruno Brasil, há duas grandes vertentes prontas para serem exploradas na bioeconomia na Amazônia: a biotecnologia de ponta, contando com o desenvolvimento de pesquisas com os bioativos e o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), “o mercado que paga para manter a floresta em pé”, nas palavras do pesquisador da Embrapa. 

“O valor anual da produção de carne e soja, por exemplo, é de R$ 604 por hectare. No caso do açaí, cacau e castanha, esse valor chega a R$ 12,3 mil. Já um grama do veneno de uma cobra surucucu vale US$ 4 mil”, afirma. A piscicultura das espécies nativas, como do tambaqui e pirarucu, também pode estimular o comércio local. Assim como os títulos verdes — papéis de dívida emitidos especificamente para financiar projetos com benefícios ambientais —, dos quais o Brasil é o segundo maior emissor. 

3- Das matrizes energéticas renováveis

Em mais este tópico, o Brasil atrai os holofotes como referência a ser seguida. Enquanto a média de participação de fontes de energia renovável na matriz energética dos países globalmente é de 13,9%, entre os membros da Organização Ocidental para o Crescimento e Desenvolvimento Econômico (OCDE) fica em 10,8% e, no Brasil, é de 46,1%. Entre a biomassa de cana de açúcar, lenha e carvão vegetal, biodiesel e outros, 33,7% da produção de energia no Brasil vem da bioeconomia. 

A biomassa da cana-de-açúcar é uma das principais fontes de bioenergia no Brasil (Foto: Flickr/Lélia Valduga)

Pioneiro em adotar uma frota de carros flex, o país investe com atenção no setor de biocombustíveis, tendo criado o Programa Nacional do Álcool e o RenovaBio, que incentivam a produção do etanol como alternativa ao uso de combustíveis fósseis. 

4- Da agricultura de baixo carbono

No Brasil, o Plano ABC, realizado entre 2010 e 2020, que segue agora como Plano ABC+, já respondeu pela mitigação de 170 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em uma área de 52 milhões de hectares e superou em 46,5% a meta estabelecida, segundo o Mapa. Ambos os planos estimulam as práticas e tecnologias de produção sustentáveis, como o plantio direto, recuperação de pastagens e a fixação biológica de nitrogênio, além dos sistemas integrados. 

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), no caso, se mostrou uma estratégia eficiente para o aumento da produtividade no campo, redução da pressão pela entrada em novas áreas com vegetação nativa e mitigação das emissões de gases de efeito estufa. O sistema de ILPF chegou a ocupar 17 milhões de hectares em 2020, e as projeções são de atingir 30 milhões até 2030. Tudo isso contribui para o país reduzir suas emissões.

Além de oferecer sombra para os animais e cobertura para o solo, o componente florestal da ILPF gera renda (Foto: Gabriel Resende/ Embrapa)

E Bruno Brasil vai além: “O futuro é a agricultura de precisão adaptada aos mecanismos e desafios dos sistemas integrados. Ela deve estar alinhada à agricultura de baixo carbono e ao bem-estar animal”, diz. Neste ponto, é quando os mercados de rastreabilidade e de certificação ganham relevância e agregam valor de sustentabilidade e produtividade na cadeia. 

5 - Dos bioplásticos e biodegradáveis 

Segundo produto em volume gerado pela indústria petrolífera, os plásticos estão entre os maiores vilões para a saúde dos ecossistemas naturais, sendo responsáveis por 80% do lixo encontrado nos oceanos, segundo estudo global publicado na revista científica Nature Sustainability em 2021.

Olhando para este problema, o mercado está avançando. A Braskem, por exemplo, desenvolveu o polietileno verde, um plástico produzido a partir do etanol da cana-de-açúcar (de origem renovável, embora não seja biodegradável). E as embalagens biodegradáveis ganham cada vez mais espaço, sendo fabricadas a partir de palha do milho, mandioca brava e outros resíduos orgânicos.

O I’m green é o bioplástico da Braskem, um polietileno que tem a cana-de-açúcar como matéria-prima (Foto: Braskem)

6 - Do uso consciente da terra

Para uma economia norteada pelo uso dos recursos biológicos, há de se manter os ecossistemas e sua complexidade como um todo, em vias de garantir a biodiversidade e promover a exploração direcionada da vida local. O uso da terra, com isso, tem a necessidade de manutenção da vegetação nativa, pelo menos em parte das propriedades.

Hoje, 66% da vegetação nativa do Brasil ainda é preservada e 163 milhões de hectares dessa vegetação estão dentro das propriedades rurais.

7 - Da transposição de desafios

Se por um lado o horizonte para a bioeconomia é fértil no Brasil, por outro, há que se considerar também os desafios no horizonte. A aposta em oportunidades como os sistemas ILPF e os créditos de carbono depende de capital financeiro e humano para deslanchar. 

“Um dos maiores entraves que elenco para o avanço da bioeconomia no Brasil é a falta de capital humano qualificado e especializado em alguns temas, principalmente por serem áreas novas, como o mercado de carbono, PSA e tecnologias digitais”, diz o pesquisador da Embrapa.

A falta de um marco regulatório da bioeconomia, como já se vê nos Estados Unidos ou na União Europeia, é o outro ponto de desenvolvimento para o modo produtivo ganhar escala no Brasil. Gargalos de infraestrutura e de investimento público completam a lista de desafios. Mas, mesmo com tudo isso, o potencial está dado e a expectativa é que a bioeconomia se estabeleça como sistema para a produção de alimentos, fibras, energia, prestação de serviços ambientais e ecossistêmicos, química verde e novos insumos. 

Este conteúdo faz parte da Jornada de Aprendizagem do Agtech Innovation, uma iniciativa da área de Learning Experience — a escola do futuro aqui e agora. 

*Com edição de Marina Salles

Contatos

Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Siga-nos