5 tendências do mercado de foodtechs para 2022

Conforme a PitchBook Data, os investimentos em foodtechs superaram a casa dos US$ 28 bilhões em 2021, alta de 85% ante 2020

Janeiro 4, 2022

Por Marina Salles

Uma salsicha melhor para você. Um frango com sabor aprovado por crianças. Uma leiteria ecológica. Um milagre que torna tudo mais doce (e mais saudável!). Foi assim que as foodtechs responsáveis por captar mais de US$ 28,8 bilhões no mercado de Venture Capital de janeiro a setembro de 2021 venderam seu “peixe” para consumidores e, por que não, investidores. 

Diante de um novo boom no mercado de proteínas alternativas e fermentadas, das lojas online de produtos frescos e marketplaces de comida pronta e saudável, os investimentos em foodtechs acumularam uma alta de 85% nos nove primeiros meses de 2021 na comparação com o ano de 2020 inteirinho, e a tendência é de manutenção do crescimento em 2022 em diferentes frentes, segundo a empresa americana de pesquisa e software PitchBook Data

A partir de uma série de levantamentos do mercado, o AgTech Garage News destaca abaixo as cinco tendências que esses investimentos deixaram em evidência e cuja curva promete ser de escalada em 2022:

    1) Proteínas fermentadas em ebulição

Em um segundo relatório sobre as foodtechs, a PitchBook Data destaca que o financiamento recorde dos VCs em proteínas fermentadas no ano que passou vai estimular a adoção ampla e significativa dessa tecnologia em 2022, para produção de alimentos e produtos lácteos independentes do reino animal. 

A Perfect Day e seu sorvete livre de proteínas animais e com gosto de leite

Os primeiros lançamentos já chegaram para o consumidor em restaurantes, cafés e lojas de conveniência e a expectativa agora é que grandes empresas se convençam do potencial dessas proteínas para garantir sua produção em escala. Estamos falando de hambúrgueres, queijos cremosos e sorvetes, como o da startup americana Perfect Day, que embolsou US$ 350 milhões em rodada liderada pelo fundo Temasek e a canadense CPP Investments. 

A Perfect Day se utiliza do processo de fermentação para criar proteínas lácteas (caseína e soro) com características que promete serem iguais àquelas encontradas no leite. Depois do lançamento do seu primeiro sorvete, a ideia é licenciar a tecnologia para grandes companhias. Hoje, a startup já trabalha com as marcas Brave Robot, Graeter's e Nick's.

    2) Carne de laboratório se consolidando 

Na visão dos editores da revista Food Technology, publicada pelo Instituto de Tecnólogos em Alimentos (IFT, em inglês), o setor de proteínas alternativas de base vegetal e animal também tende a se manter aquecido e passar por uma fase de consolidação. Nesta área, são esperadas fusões e aquisições em 2022, depois de um movimento de aceleração das startups que chegaram primeiro ao mercado e da reação rápida de indústrias de alimentos, que investiram pesado para se proteger de uma disrupção aparentemente inevitável na sua cadeia.  

Nas gôndolas, o destaque para o Beyond Chicken está na crocância e suculência

 Até aqui, as foodtechs líderes em proteínas vegetais (plant-based), incluindo Impossible Foods e Beyond Meat, acumularam dinheiro suficiente para fazer movimentos ousados, segundo os especialistas. Enquanto as empresas de carne tradicionais, do porte da Tyson Foods e Cargill, desembolsaram capital considerável para também acelerar a tecnologia de startups de carne de laboratório, como a New Wave Foods, Memphis Meats, Aleph Farms e Future Meat Technologies.

Em termos regulatórios, por enquanto, a carne de laboratório só foi aprovada em Cingapura, na Ásia. Nos Estados Unidos, precisa passar pelo crivo do Departamento de Agricultura (USDA) e do FDA (Anvisa norte-americana) para chegar às gôndolas. De qualquer forma, o governo americano está apoiando a causa destinou um subsídio de cinco anos no valor de US$ 10 milhões para a Tufts University estabelecer o Instituto Nacional de Agricultura Celular no país. 

    3) Bandeira contra o desperdício hasteada de vez 

Especialista em marketing e fundador da Hazel Technologies, Pat Flynn pode ser até suspeito para falar, mas tem argumentos fortes sobre o potencial do mercado de foodtechs para reverter o desperdício de alimentos. 

Em 2021, a Hazel angariou US$ 70 milhões com a empresa de private equity americana Pontifax AgTech e o fundo soberano de Cingapura Temasek, além de outros players, para multiplicar por três a vida útil de frutas e verduras por meio de sachês que liberam um vapor um tanto “mágico”. Esse vapor (que pode conter um antifúngico ou um princípio ativo para neutralizar o hormônio do amadurecimento das frutas) é mais uma ferramenta na luta contra o desperdício, que chega a ⅓ da produção agrícola mundial todos os anos. 

Considerando que essa comida desperdiçada emite ainda de 8% a 10% dos gases de efeito estufa globais, investir nesse mercado é uma necessidade que está ganhando apelo entre os investidores. Se estivéssemos falando de um país, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o desperdício de alimentos teria a terceira maior pegada de carbono do mundo, atrás apenas dos EUA e da China. Os sachês da Hazel Technologies, que podem ser colocados em caixas de produtos a granel imediatamente após a colheita, já estão sendo usados ​​por mais de 160 clientes em 12 países. 

Caixa com sachês da Hazel Technologies aumenta durabilidade de abacates

Nesse mercado promissor, a Apeel Sciences levantou US$ 250 milhões em 2021, quando foi avaliada em US$ 2 bilhões. A startup desenvolveu uma película à base de plantas que aumenta o tempo de prateleira de frutas e vegetais. A película não tem cheiro nem gosto e mantém a umidade dos alimentos ao mesmo tempo em que evita o contato com o oxigênio do ar. Enquanto a Too Good To Go, fundada na Dinamarca, teve aporte de US$ 31 milhões ajudando estabelecimentos em diversos países a vender, de maneira fácil e rápida, alimentos à beira do prazo de validade. Por meio de um aplicativo, comércios locais oferecem descontos e pacotes surpresa para conquistar os consumidores. 

    4) Delivery de produtos frescos acelerando na subida 

Depois de um ano de crescimento absurdo e bilhões investidos em startups de entrega de alimentos frescos, esse mercado demonstra amadurecimento rápido, segundo Sam Panzer, entusiasta alemão do mercado de foodtechs e expert em Customer Success na empresa de tecnologia de marketing Talon. 

Para fidelizar o consumidor, a Gorillas oferece preços camaradas pelas entregas

A expectativa agora é de fusões e aquisições, bem como da estreia dos primeiros IPOs (oferta pública inicial de ações) e SPACs (sociedade anônima listada em bolsa de valores). Startups que recém entraram no mercado e que receberam aporte estão mantendo as taxas de entrega extremamente baixas (como o Gorillas, que cobra US$ 1,80 para levar o pedido do consumidor até sua porta), ao passo que as entregas de redes de supermercados como Whole Foods, Kroger e Wal-Mart giram em torno de US$ 10.

A questão ainda é como o aumento dos preços dos alimentos impactará esse mercado. Até aqui, os consumidores se mostraram dispostos a pagar pela entrega por conta da comodidade, mesmo tendo um custo extra e gerando um passo a mais na cadeia de abastecimento. 

    5) Kit para o preparo de refeições na moda e na mesa

Durante anos, a expressão “meal kit”, ou “kit de refeição”, descreveu o modelo de negócios pioneiro da Blue Apron e outras startups, em que os clientes recebem em casa, por assinatura, ingredientes pré-porcionados e instruções com o passo a passo para preparar suas próprias refeições. Mas a definição está ganhando novos contornos e se tornando mais abrangente, de acordo com o AgFunder, que aponta sinais claros do crescimento desse mercado num novo contexto impulsionado pela pandemia. 

Kit de preparo de refeições da Blue Apron foi pioneiro. Hoje, outras empresas inovam no setor.

“Meal kit” agora pode significar qualquer coisa, desde uma caixa cheia de delícias para cozinhar em casa, uma refeição congelada pré-fabricada ou até itens perecíveis. A brasileira Liv Up, por exemplo, é especializada em refeições frescas e congeladas e nos últimos dois anos adicionou ao seu cardápio itens como carne, produtos agrícolas frescos e laticínios. A foodtech captou US$ 32 milhões em uma das maiores rodadas de investimentos do seu setor no primeiro semestre do ano passado. 

Principais investimentos em foodtechs de meal kits no primeiro semestre de 2021 (Fonte: AgFunder)

“A comida, para muitas pessoas, é muito mais emocionante agora do que décadas atrás e muita gente está se definindo em algum grau em relação à sua alimentação: ‘Sou vegano, sou vegetariano, só como orgânico’. É muito mais pessoal e emocional do que antes”, já afirmava Brad Dickerson um ano depois de a Blue Apron ser listada na Bolsa de Nova York. O futuro da alimentação está mudando e as startups, como a sueca Curb Food, não têm mais medo de dizer que estão ajudando a trazer a paz mundial para a mesa de jantar. 

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Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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