Mercado de Observação da Terra: o futuro do agronegócio

Matéria-prima para a criação de uma gama de novos produtos e serviços, o mercado de observação da Terra pode girar US$ 815 milhões em 2029

Junho 17, 2021.

Por Marina Salles

O mercado de observação da Terra baseado em serviços e produtos para a agricultura está prestes a decolar. E de 2021 a 2029 o potencial é que dobre de tamanho atingindo a marca de US$ 815 milhões, segundo o relatório “Earth Observation Market for Agriculture”, produzido pela consultoria Euroconsult em parceria com a empresa TerraMetric, especializadas no mercado espacial. 

Ainda segundo o relatório, o impulso deve vir da maior capacidade de automatização de análises de dados e do surgimento de novas constelações de satélites, com um empurrão extra da ampliação da conectividade na zona rural. 

Hoje, enquanto você lê esse texto, de acordo com o Banco de Dados de Satélite alimentado pela União de Cientistas Preocupados (USC, na sigla em inglês), 3,4 mil satélites estão sobre nossas cabeças colhendo informações na órbita da Terra. Na foto acima, trazemos uma imagem dos nano satélites da Spire (leia mais em Spire: Com o aquecimento global, a agricultura terá que ser orientada por dados). 

 

(Fonte: MIT Technology Review/ Banco de Dados de Satélite alimentado pela União de Cientistas Preocupados)

E a tendência é que nos próximos anos sejam muitos mais, com o ritmo de lançamentos saltando de 365 por ano até 2018 para algo em torno de 1,1 mil em 2025, de acordo com a MIT Technology Review. Uma infraestrutura considerável que, além de servir às telecomunicações e estratégias de defesa governamental, a cada dia ganha mais e mais aplicações na agricultura.

Um mundo de oportunidades

Prato cheio para a inovação no agronegócio, as imagens de satélite têm despertado as startups do Brasil e do mundo para um universo cheio de possibilidades e que inclui produtos de crédito e seguro agrícola, Data Analytics e estatística. 

Big Data e Analytics aplicados ao agronegócio

Com a certeza de que uma das próximas barreiras para o aumento da produtividade na agricultura não estaria relacionada só a sementes ou químicos, mas a dados, José Damico, por exemplo, não hesitou em fundar a SciCrop.

Ainda em  2015, ele começou a programar uma grande plataforma que três anos depois viria a se tornar o megaproduto da sua empresa. Em tempo real, a AgroAPI coleta e analisa dados de clima, solo, manejo, pragas, doenças, logística e mercado, funcionando como uma vitrine integrada de informações que derivou em uma série de outros serviços.

Somente no ramo agrícola, a SciCrop tem hoje sete soluções, fornecendo desde um serviço que conecta máquinas e implementos em áreas remotas à internet via satélite (FarmLink) até um Sistema de Informação Geográfica para a prática da agricultura de precisão com um dos valores mais baixos do mercado (FarmGIS). A ideia, segundo o fundador, nunca foi reinventar a roda, mas extrair o máximo das tecnologias disponíveis no mercado.

“Tem gente que me fala que a conectividade é um impedimento para a adoção de tecnologia no agro e aí eu gosto de contar o case de uma indústria de fertilizantes que nós atendemos com o FarmLink. Lá não chegava internet de jeito nenhum e hoje usando ioT industrial e um satélite que passa pela área apenas por 10 minutos todos os dias conseguimos sair do mundo analógico para o digital e monitorar toda a operação”, diz Damico. 

Já no caso de poder ofertar a baixo custo, de 15 centavos por hectare, um serviço como o FarmGIS, ele conta que nem precisou ir tão longe assim. “Hoje, todo mundo quer ir para a nuvem, armazenar os dados fora de casa, e o que nós fizemos foi recorrer, em parte, à supercomputação usando placas de vídeo extremamente poderosas”, conta. 

José Damico, CEO da SciCrop, carrega um supercomputador com a ajuda do desenvolvedor Thales Brandão

Dentro da SciCrop foram formados clusters, como se fossem de mineração de bitcoin, e a conta com a nuvem, que poderia superar os US$ 15 mil por mês, foi substituída por outra que custa, em média, menos da metade. Para manter um supercomputador em operação, Damico conta que o gasto com energia elétrica se equipara ao de quatro chuveiros elétricos funcionando simultaneamente. Com duas máquinas já em uso, a startup estuda adquirir uma terceira.

Seguro personalizado

Na VanderSat, que tem escritórios na Holanda e África do Sul, e monitora mais de 10 milhões de hectares de lavouras inclusive no Brasil, a inteligência por trás do processamento de imagens de satélite gratuitas foi o que garantiu um diferencial para o crescimento da empresa em três frentes de negócios: agricultura, seguros e água & clima. 

“Oferecemos a nossos clientes insights sobre as condições do solo e do cultivo, aplicando nosso conhecimento matemático a dados brutos de uma constelação de satélites de diversas agências espaciais, inclusive a europeia [ESA], americana [NASA] e japonesa [JAXA], afirma André Veneziani, responsável pela área comercial da VanderSat na América Latina. 

Na agricultura, os dados de umidade do solo, disponibilidade de água, biomassa e temperatura da empresa contribuem, por exemplo, para o desenvolvimento de soluções digitais pela plataforma Xarvio, da Basf. Enquanto na áreas de seguros formam a espinha dorsal dos produtos paramétricos de gigantes como SwissRe e AXA.

Em relação aos seguros paramétricos, Veneziani explica que são uma modalidade baseada em um indicador, que quando é atingido já permite acionar a cobertura, de forma remota e ainda no decorrer da safra. Por exemplo, se a umidade do solo do produtor cair mais do que o esperado para o período da safra, o seguro paramétrico indeniza a perda pela seca por meio do índice de umidade do solo medido diariamente via satélites pela VanderSat.

Análises de solo do Sul do Brasil produzidas pela VanderSat mostram que, desde 2018, têm sido observados períodos mais secos na fase de colheita da soja (Fonte: VanderSat)

O modelo, baseado em dados, dá mais transparência e objetividade na constatação dos sinistros e, pelo seu grau de personalização, tende a ser, inclusive, mais barato. No Brasil, a VanderSat já trabalha com seguradores e resseguradoras oferecendo sua tecnologia para parametrizar seguros em cana, soja e milho e entrará no mercado de pastagens ainda esse ano. 

Crédito agrícola acessível e eficiente

Usando imagens de satélite, inteligência artificial e dados complementares, a startup brasileira TerraMagna atua, por sua vez, na área de crédito e tem como objetivo dar ferramentas para o financiador da safra — que pode ser um distribuidor de insumos, indústria ou cooperativa — acompanhar o risco da lavoura mesmo antes do plantio.

A tecnologia evita fraudes como a ausência da semeadura ou desvio do grão e permite monitorar de perto, ainda, as chances de possíveis quebras de safra. 

Bernardo Fabiani, CEO da TerraMagna, afirma que tão importante quanto olhar a lavoura hoje é olhá-la no passado, no que as imagens obtidas da órbita da Terra dão uma ajuda e tanto. “Se o produtor planta há 20 anos naquele pedaço de chão, isso é o relevante, e eu consigo cruzar a margem operacional dele com seu desempenho histórico, o preço médio do grão na sua região, os custos de insumos e outros dados para precificar seu crédito”, explica. 

No fim do dia, a meta é gerar valor na ponta e prover um serviço seguro e mais barato para os produtores rurais. “As imagens de satélite, vale dizer, são um meio e não o fim e as empresas que vão dar certo na agricultura são aquelas que vão entregar serviços completos”, diz Fabiani. Na TerraMagna, isso se traduz em formas de avaliar o risco, ajudar o financiador a monitorar suas garantias e até captar recursos com juros mais atraentes no mercado de capitais.

Evolução da gestão de risco no agronegócio (Fonte: TerraMagna)

Mas no caso, por exemplo, de uma consultoria de agricultura de precisão, não seria nada diferente, segundo Fabiani. “Eu vejo que entregar um serviço completo é ir de ponta a ponta. No caso da consultoria de agricultura de precisão, entregar um serviço para identificar a deficiência nutricional, fazer a aplicação do insumo que resolve o problema e entregar um aumento de produtividade”. Porque, em suas palavras, de nada adianta mostrar para o produtor uma imagem de satélite com um buraco vermelho no meio. 

Termômetro da produtividade e tendências

Originalmente focada em soluções de monitoramento da lavoura para atender o produtor rural, a Agronow percebeu que poderia gerar mais valor para a cadeia do agronegócio usando os dados coletados no espaço para atender o público B2B. E, assim, incluiu em sua carteira principalmente bancos, empresas de logística, tradings e agroquímicas. 

Daniel Issa, diretor comercial da startup, afirma que o objetivo da Agronow é transformar as imagens de satélite em dados de interesse da cadeia da soja, do milho, florestas e cana-de-açúcar. “A gente consegue extrair dessas imagens basicamente um retrato de todas as áreas agrícolas do país, identificar as culturas e dar estimativas de produtividade comparando a realidade da fazenda específica com a do seu município, Estado ou a média Brasil”, diz. Os dados são úteis para traçar, por exemplo, tendências agrícolas macrorregionais, fazer análises de risco de crédito e fundamentar relatórios de inteligência de mercado. 

Para Denis Araujo Mariano, especialista em sensoriamento remoto que entrou para o time da Agronow no ano passado, vale ressaltar que a dinâmica da Terra está sendo bastante afetada pela ação humana e que somente por meio da informação e do conhecimento será possível produzir mais e melhor na agricultura. Com o mercado de observação da Terra disparando como um foguete, segundo Mariano, a missão dos empreendedores em terra firme será a de conseguir extrair valor dos dados coletados e auxiliar a cadeia do agronegócio a caminhar no sentido de uma produção cada vez mais sustentável.

Contatos

Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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