Junho 1, 2021.
Por Marina Salles
As startups E-ctare, de crédito inteligente, e CowMed, de monitoramento da pecuária leiteira, fecharam uma parceria que deve beneficiar um rebanho de 6 mil vacas ainda este ano. Isto equivale a R$ 2 milhões em coleiras financiadas e compreende cerca de 30% do rebanho já atendido pela CowMed, de 22 mil vacas, segundo Thiago Martins, cofundador e CEO da startup.
Com a tecnologia da CowMed, o produtor de leite é capaz de identificar vacas no cio, doentes ou com alterações comportamentais, sejam elas ligadas à sua nutrição, ciclo reprodutivo ou saúde em geral.
Já a E-ctare oferece ao produtor linhas de financiamento com garantia baseada na sua própria Cédula de Produto Rural (CPR) e duplicatas, além do Certificado de Depósito Agropecuário e Warrant Agropecuário (CDA-WA), relativos à armazenagem de produtos do setor.
Até então, Martins conta que boa parte das coleiras comercializadas pela CowMed eram financiadas com recursos próprios e uma parcela menor por investidores em rodadas de antecipação de recebíveis.
Agora, a ideia é levar ao produtor um financiamento mais versátil e alongado, de maneira rápida, segura e acessível. “É como quando você vai comprar um carro, a própria concessionária já tem convênio com alguns agentes financeiros e a pessoa sai dali com o tudo contratado. A nossa ideia é fazer algo semelhante e facilitar a vida do produtor”, explica Martins.
Uma vez financiando o equipamento da CowMed com a E-ctare, o produtor passa a ter uma linha de crédito com lastro nos animais monitorados, afirma Marcell Salgado, CEO e fundador da E-ctare.
“O produtor vai ter acesso a crédito automático simplesmente por usar o colar nas suas vacas, o que de um lado traz vantagens para ele na sua atividade e, de outro, traz um ‘plus’ em função do uso da tecnologia, porque desmobiliza o capital do rebanho, inclusive para outros investimentos”, explica.
Elias Schuhmann, consultor de estratégias de novos negócios B2B e B2C da CowMed (à esquerda) ao lado de Marcell Salgado (centro) e Eduardo Cezarino, gerente implantação e novos projetos da E-ctare (direita)
Salgado lembra que, em muitos casos, o principal capital de que o produtor de leite dispõe é seu próprio rebanho e que, na prática, para ter condições de investir em uma nova tecnologia, o caminho acaba sendo vender parte do seu ativo, em um movimento quase que contraditório.
Diante dessa realidade, Salgado vê grande potencial na aproximação da E-ctare com outras startups, sobretudo da pecuária. “Nosso objetivo é construir um cluster e permitir que startups prestadoras de serviço ao produtor pluguem o nosso serviço financeiro ao delas”, diz, gerando mais valor na ponta. A prática que tem sido vista com muito bons olhos no mercado e deve gerar, segundo Salgado, novas parcerias em breve.
Ainda no tema das parcerias, mas com assistências técnicas, a E-ctare tem buscado mapear os investimentos que geram maior impacto na atividade dos produtores de leite conforme seu nível tecnológico.
“Percebemos que toda e qualquer inovação envolve investimento inicial e que boa parte dos produtores de leite não estão preparados para entrar em programas de assistência técnica sem um impulso imediato”, conta Salgado.
Em conjunto com assistências técnicas, o objetivo é oferecer crédito ao produtor e soluções que acelerem o potencial produtivo da fazenda. Nas primeiras análises, a startup já constatou, por exemplo, que para produtores menos tecnificados a redução do estresse térmico dos animais é de grande valia. “A redução do estresse térmico gera um impacto extremamente positivo na atividade desses produtores e, para isso, seria interessante investir recursos na construção de salas pré-ordenha para baixar a temperatura dos animais”, diz o empreendedor.
No fim das contas, o objetivo das parcerias é fazer a roda girar. “Estamos falando de como usar da garantia do rebanho para levantar um investimento que vai retornar ao produtor e ajudá-lo a quitar seu financiamento”, resume Salgado.