Junho 14, 2021.
Por Marina Salles
A Planet — empresa com a maior constelação privada de satélites do mundo, que conta com 200 equipamentos capazes de produzir quase que uma imagem de cada hectare da Terra todos os dias — definiu a agricultura como uma de suas prioridades.
Em entrevista ao AgTech Garage News, Ariel Zajdband, especialista em produtos para agricultura da Planet, contou que além de uma gama considerável de soluções para o setor, que já inclui estimativas de produtividade, mapas de prescrição para aplicação de insumos e manejo inteligente da irrigação, a empresa trabalha em aplicações que vão ajudar a garantir a segurança alimentar no planeta e monitorar as emissões de gases de efeito estufa ao redor do mundo.
Ariel Zajdband: Com um conjunto global de dados, a Planet apoia hoje produtores em todas as regiões do mundo. Nossos principais clientes do agronegócio estão espalhados da América do Norte e América Latina à Europa e Nova Zelândia.
As imagens de satélite da Planet ajudam esses produtores e também os distribuidores de insumos a detectarem o estresse da safra, entenderem as tendências de produção, orientarem suas operações e monitorarem as limitações das lavouras para ajudar a promover a segurança alimentar.
Tradicionalmente, as imagens de satélite são adequadas para monitorar plantações em grandes áreas. No entanto, vemos cada vez mais interesse em nossos dados para monitorar todos os tipos de safras, de mirtilo a café e nozes. Isso ocorre porque nossas imagens de resolução de 3,7 metros oferecem uma visão mais granular que pode ser altamente benéfica para fazendas de pequeno porte, ao contrário de outras constelações de satélites de baixa resolução e baixa frequência.
Ariel Zajdband: A agricultura é o principal mercado da Planet, e vendemos dados para praticamente todas as grandes empresas agrícolas do mundo — Basf, Bayer, Syngenta etc — para que os produtores possam tomar decisões mais rápidas e informadas para aumentar seus rendimentos sazonais.
Por meio das plataformas agrícolas digitais de nossos clientes e parceiros, geramos para os produtores conhecimento agronômico que auxilia na tomada de decisão diária nas atividades agrícolas. É o caso da Solinftec, que tem uma importante presença na região. As imagens do planeta que nós fornecemos adicionam uma camada de dados às plataformas dessas empresas.
A Planet produz imagens de toda a Terra diariamente. E, apesar das nuvens e outras variáveis, podemos dizer que geramos quase uma imagem de cada hectare da Terra todos os dias.
Ariel Zajdband: A constelação da Planet é formada hoje por 200 satélites, que capturam imagens de todo o globo. Nossos satélites Dove são os de resolução média e funcionam como scanners de uma mesma linha, reproduzindo continuamente imagens da massa terrestre conforme o planeta gira. Também temos uma constelação de alta resolução, de 21 SkySats, capaz de fornecer uma visão mais granular de áreas específicas. Ambas as constelações fornecem dados ópticos, o que faz com que nuvens, fumaça e neblina ainda representem um desafio, por atrapalharem uma visualização clara. Nossa cobertura de alta frequência, no entanto, geralmente oferece aos produtores de regiões nubladas uma grande chance de obterem imagens utilizáveis.
Ariel Zajdband: Para ajudar a fornecer uma visão mais completa das fazendas em todo o mundo, anunciamos recentemente o Planet Fusion Monitoring, que combina vários tipos de dados e os refina em um fluxo único de informações.
O Fusion Monitoring une os dados diários de alta frequência da Planet com conjuntos de dados adicionais para fornecer um fluxo ininterrupto de medições consistentes, livres de lacunas e de nuvens. Essa tecnologia é ideal para a análise de séries temporais. Acreditamos que isso terá implicações importantes para os produtores rurais, pois tem potencial de fornecer uma visão completa e sem falhas da saúde da vegetação e conduzir a uma modelagem mais precisa de estimativas de produção.
Ariel Zajdband: O maior desafio está na geração de insights práticos a partir dos dados de satélite, e aí que nossos parceiros entram, porque a interpretação ainda é difícil para o produtor. Usando nossas APIs, as empresas parceiras geram visualizações analíticas que integram a suas plataformas digitais.
Isso pode ajudar a apontar anomalias aos produtores por meio de notificações que enviamos por e-mail e é uma excelente maneira de otimizar os esforços de patrulha direta no campo.
E quando esses dados são combinados com informações adicionais, os benefícios começam a se multiplicar. É o caso do cruzamento com dados de rendimentos históricos e do custo de produção, além daqueles gerados por sensores, estações meteorológicas, equipamentos conectados entre outros.
Ariel Zajdband: A Planet vende dados por meio de um modelo baseado em assinatura e tem uma plataforma digital em que as imagens de interesse dos clientes e dados globais de satélite de alta temporalidade podem ser acessados.
Além disso, conta com uma API e um software online para integrar as informações da Planet às dos parceiros e promover um novo leque de possibilidades de análise dos dados. Os assinantes ainda podem acessar nosso arquivo, que tem imagens registradas desde 2009, e, assim, construir algoritmos mais robustos e observar mudanças ocorridas ao longo do tempo.
Ariel Zajdband: Dados de observação pública da Terra, de missões como Landsat e Sentinel, podem fornecer uma tonelada de informações valiosas para cientistas, pesquisadores e analistas. E, sim, esses dados são gratuitos. Mas a interpretação desses dados, definitivamente, não vem de graça.
Existem desafios consideráveis e um trabalho demorado e caro envolvido na transformação de imagens públicas em dados limpos e processados, e ter que lidar com isso pode ser um grande fardo para os clientes e usuários finais.
Na verdade, nós mesmos fornecemos acesso aos dados do Sentinel e do Landsat juntamente com as imagens do PlanetScope. Porque é útil para os nossos clientes ter uma única fonte para todos os seus dados de satélite, e nossas APIs ajudam a garantir que na outra ponta o usuário encontre e faça download apenas do que precisa. Como nossas imagens podem ser recortadas para limites de campo específicos, isso também reduz custos com armazenamento e processamento de dados, que podem ser onerosos, mesmo considerando as informações governamentais gratuitas.
Ariel Zajdband: Consigo pensar em algumas coisas. Do lado dos softwares, o aprendizado de máquina e a fusão de dados se tornarão componentes-chave, pois permitirão que os produtores obtenham acesso mais fácil e rápido a informações valiosas vindas dos satélites. Já do lado do hardware, nossa abordagem tem sido a mais ágil possível, para garantir que estamos enviando as tecnologias mais recentes para o espaço.
Em 2019, lançamos nossos SuperDoves da próxima geração com a tecnologia mais avançada a bordo para oferecer melhor qualidade e nitidez de imagem. Além disso, os SuperDoves são equipados com bandas espectrais adicionais, especificamente de borda vermelha, que irão desbloquear novos tipos de análise e modelagem na agricultura e silvicultura. Para a agricultura, a faixa vermelha pode ajudar a medir o status do nitrogênio nas lavouras, o que pode reduzir os custos associados à amostragem física e ajudar a otimizar as aplicações de nutrientes.
Recentemente, também anunciamos um novo programa de satélites com parceiros da NASA JPL (Jet Propulsion Laboratory) e com o Estado da Califórnia, chamado Carbon Mapper. Este programa construirá uma constelação de satélites hiperespectral para localizar, quantificar e rastrear emissões pontuais de metano e CO2. As imagens hiperespectrais têm o potencial de dar detalhes sobre as propriedades físico-químicas dos materiais.
Desde a identificação do estresse das lavouras até o gerenciamento do nível de irrigação e a classificação dos tipos de cultura, os dados hiper espectrais fornecem um valor imenso para o setor agrícola. À medida que a demanda global por alimentos se acelera, os dados hiperespectrais de satélite podem se tornar uma fonte importante de informação sobre as práticas de agricultura de precisão e podem ajudar a garantir que haja comida para todos.
Os satélites SuperDove carregam em si uma mensagem para as próximas gerações: "O fato de sabermos - com precisão e exatidão - que o clima está mudando é um testemunho profundo das nossas habilidades científicas e técnicas, e para a humanidade é um imperativo para colaborar além das fronteiras organizacionais e nacionais"