Agosto 16, 2021
Por Marina Salles
É inegável a evolução recente do Brasil no caminho da inovação aberta — que prevê a cooperação entre múltiplos atores do ecossistema, como empresas, governos, startups e universidades.
Conforme a 100 Open Startups, há cinco anos, apenas 82 empresas mantinham relacionamento de open innovation (inovação aberta) com startups no país. Hoje, são 1.635 empresas, 20 vezes mais. E quem está em maior contato com as startups são os executivos de grandes empresas (33%), muitas delas multinacionais.
Atrás de soluções inovadoras para gerar oportunidades nas suas corporações (84,1%), de conhecer novas ideias e inovações (71%), auxiliar empreendedores no desenvolvimento de seus negócios (40,6%) e procurar oportunidades de investimento (36,6%), esses executivos têm tirado projetos do papel de forma acelerada e exportado a estratégia de inovação aberta desenvolvida no Brasil para outros países. Especialmente no setor de alimentos e bebidas, que tem total conexão com o agronegócio, e ficou em 2ª na lista de 33 setores com mais densidade de iniciativas, atrás apenas do ramo de serviços financeiros.
No nosso AgTech Garage, hub especializado no agronegócio, de uma base de cerca de 850 startups, 81% afirmam que têm interesse em fazer parcerias com grandes empresas; 85,6% estão buscando conexões neste momento e 59% têm pelo menos uma parceria em curso. Os motivos das startups para estabelecer essa ponte são vários, começando pelo interesse na contratação de projetos-piloto (26%), acesso à base de clientes e canais de vendas de escala (22,4%), oportunidade de se tornar fornecedor (20,9%), acesso a capacitação e mentoria (17,8%) e matchmaking e conexões (16,5%). Tudo visando parcerias ganha-ganha.
No AgTech Garage há uma grande variedade de startups que buscam interagir com grandes empresas
O Brasil e seu ecossistema de inovação no agronegócio
Renata Morelli, da Koppert do Brasil, está totalmente imersa nesse movimento. Trabalhando em uma empresa com sede na Holanda e subsidiária no Brasil, ela lidera iniciativas de inovação aberta da companhia no país que geraram frutos e já estão desembarcando na Europa.
É o caso de armadilhas de insetos que fazem parte de um grande projeto da Koppert com a startup e-Trap, a Jacto e o SparcBio, um centro de pesquisa na Esalq-USP inaugurado pela companhia holandesa em parceria com a Fapesp.
“O Brasil é um mar de agricultura e muitas inovações que surgem aqui são novidade em outras partes do mundo. Um exemplo disso é a armadilha da e-Trap, que nós exportamos para a Europa e eles vão começar a testar”, afirma Renata. A armadilha, criada a múltiplas mãos, tem sensores e câmeras inteligentes capazes de fazer a contagem de insetos capturados de forma remota e usando feromônios (hormônios de atração sexual).
Para Renata, o pioneirismo do Brasil na estratégia de inovação aberta de multinacionais como a Koppert se explica por uma tríade de fatores: o clima favorável à produção durante o ano todo, a agricultura de escala e o ecossistema empreendedor para lá de pujante.
“Nós temos agricultura o ano todo no Brasil e conseguimos desenvolver soluções na safra e entressafra, diferente da Europa e dos EUA. Lá os países também têm cada um a sua cultura, processos distintos de produção e menor escala, o que torna tudo mais complexo”, diz a executiva.
Parceira do AgTech Garage desde janeiro de 2020, a Koppert fundou dentro do hub um observatório de startups com soluções voltadas especificamente para o controle biológico, o Gazebo, onde vem desenvolvendo o projeto com a e-Trap. “Estarmos bem próximos das startups, dentro do AgTech Garage, nos deixa imersos nesse cenário de inovação, entendendo quais soluções das startups vão trazer melhor qualidade de aplicação de produto, de monitoramento da lavoura entre outros aspectos”, afirma Renata, que no momento está trabalhando ao lado de 15 startups em diferentes soluções.
Renata Morelli, líder de inovação do Gazebo e do SparcBio
Polo ideal para teste de novas tecnologias
Na multinacional americana Bunge, Braian Souto, gerente de projetos estratégicos, destaca que o Brasil tem sido palco de importantes iniciativas de modernização de processos e negócios. Isto, dada a relevância do país na produção mundial de soja e do ambiente favorável à inovação em rede. “O Brasil tem um campo muito vasto de possibilidades para a evolução tecnológica no agronegócio, o que favorece o ecossistema de inovação voltado para este setor em especial”, afirma Souto.
Tanto que a Bunge estreou em terras brasileiras duas grandes iniciativas de inovação aberta, que já são referência mundo afora. Uma delas, a parceria com a Orbia, controlada pela Bayer, para comercialização digital de commodities. E a outra, a parceria com a Target, companhia com 15 anos de expertise no setor de logística, que resultou na fundação da Vector. “Com foco em manter os negócios ágeis e eficientes, nossa estratégia de inovação é centrada em desafiar nosso próprio core business e a inovação aberta é um dos caminhos que escolhemos trilhar”, diz Souto.
Desta forma, a empresa vem estreitando laços com empreendedores, startups, instituições de pesquisa e outros players do mercado para ter acesso a soluções, experiências, habilidades e conhecimentos que não faziam parte do seu know-how, mas que considera essenciais para desenvolver soluções transformadoras.
No caso da parceria com a Orbia, em apenas três meses, a plataforma digital negociou 75 mil toneladas de soja 100% online. Por meio do marketplace controlado pela Bayer, os produtores conseguem realizar cotações, vender sua safra e assinar o contrato sem sair de casa, seja na venda à vista (spot) ou por meio de operações de barter (em que a compra de insumos é financiada com a venda de grãos). Essa é mais uma modalidade de negócios para a Bunge, cuja base atual de fornecedores brasileiros é de 12 mil produtores e 200 revendas e cuja movimentação chega a 25 milhões de toneladas de grãos por ano.
Na parceria com a Target, em um ano de operação, a Bunge conseguiu concentrar 97% das suas contratações de frete no Brasil pelo aplicativo Vector, que viabilizou mais de 550 mil viagens e o pagamento de R$ 2,6 bilhões em transportes logísticos. O sucesso foi tamanho que o app evoluiu e virou uma empresa independente em maio deste ano, e que deve chegar, em breve, a outros países.
A Vector, focada na digitalização do processo de contratação de fretes rodoviários, tem uma base de 48 mil caminhoneiros e atenderá a outros setores além do agronegócio, como a construção civil, papel e celulose, mineração, combustíveis e varejo.
Na frente de relacionamento com startups, a Bunge participou em 2020 no Brasil do A.I Corporate Innovation, promovido pelo Senai do Paraná, e em 2021 fez sua estreia no Intensive Connection, promovido pelo nosso AgTech Garage.
“Em janeiro de 2021, nos tornamos parceiros de inovação do AgTech Garage, o principal hub de inovação especializado em agronegócio no Brasil, e já estamos colhendo frutos dessa parceria que nos permite colaborar com startups — temos dois projetos em andamento sob o programa Intensive Connection —, mas também com outras organizações e instituições que atuam no ambiente do hub”, conta Souto.
Braian Souto, gerente de projetos estratégicos da Bunge
Ambiente de desafios e oportunidades
E é essa diversidade de atores cooperando que faz a diferença para o Brasil ser um verdadeiro pólo para a inovação aberta, na visão de Kieran Gartlan, diretor do The Yield Lab Brasil, cujo fundo de investimento atua nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina.
“O ecossistema de inovação aberta dos EUA e da Europa está muito focado nas universidades e instituições estatais. Na Holanda, temos a Wageningen University. Nos EUA, a Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, além de Purdue. E são universidades como essas que estão mais abertas a receber startups e integrá-las ao ecossistema de inovação local”, diz ele.
Segundo Gartlan, nesse cenário, os hubs de inovação são muito menores, porque a cultura das empresas é de desenvolver a inovação dentro de casa ou de se aproximar de iniciativas do governo e das universidades, onde encontram um apoio fundamental. No Brasil, esse estímulo não é regra, apesar de iniciativas de alto impacto desenvolvidas pelo esforço de pesquisadores em instituições públicas de renome no país.
O desempenho do Brasil nos sete principais pilares do Índice Global de Inovação. (Fonte: GII)
Conforme o Global Innovation Index (GII) 2020, o Brasil aparece em 62° lugar entre os 131 países que mais inovam no mundo. É o 16ª entre 37 economias de renda média-alta. E sobe para 4°considerando apenas o grupo de 18 países da América Latina e Caribe. Mas, se por um lado, sobra ao país capital humano, sofisticação nos produtos e conhecimento em tecnologia, segundo o GII, ele está abaixo da média no pilar das instituições. Coincidência ou não, é nesse ambiente de desafios e oportunidades que têm crescido cada vez mais as iniciativas de inovação aberta que, ao congregar diversos atores, fazem do ecossistema empreendedor uma entidade cada vez mais forte.