O mercado da soja: como Chicago, o câmbio e os prêmios portuários influenciam o agronegócio

Entenda como fatores econômicos e financeiros moldam o preço da commodity e impactam a competitividade brasileira no comércio global 

Dezembro 12, 2024

Por: Guilherme Legnani Galan 

O Brasil, um dos maiore produtores   desempenha um papel importante no fornecimento de soja, juntamente com Estados Unido e Argentina respondem por mais de 80% da produção mundial. Essa liderança é sustentada por uma cadeia robusta com desafios complexos. Dentro da porteira, fatores como clima, pragas e plantas daninhas impactam diretamente o potencial produtivo da cultura. Apesar disso, o produtor rural brasileiro se destaca pela utilização de tecnologias que aumentam a eficiência na produção

No entanto, após a colheita, surgem novos desafios, a comercialização, por exemplo, ainda apresenta espaço para avanços, especialmente no que diz respeito ao posicionamento técnico e estratégico no comércio mundial. Nesse cenário, uma dúvida recorrente entre produtores e investidores é: “O preço da soja vai subir?” A resposta, no entanto, não é simples. Como qualquer commodity, o preço é influenciado por um sistema de variáveis independentes, como o mercado financeiro, o prêmio do porto e o câmbio.

No mercado financeiro, a soja é negociada na Chicago Board of Trade (CBOT), a maior bolsa de commodities do mundo. Nesse ambiente, atuam diariamente diversos players — como hedgers (aqueles que utilizam contratos futuros para proteger-se de variações dos preços), especuladores, fundos de investimentos e indústrias — que, em busca de proteção financeira e lucros, influenciam a formação dos preços globais 

Além disso, o prêmio do porto desempenha um papel essencial na precificação da soja. Ele reflete o “apetite” de compradores e vendedores pelo grão físico no Brasil, funcionando como um mecanismo de equilíbrio entre a oferta e a demanda, ajustando os preços conforme as condições comerciais. O prêmio pode variar conforme fatores como safra, estoque e demandas internacionais.  

Já o câmbio é outra variável crucial, impacta diretamente o preço da soja brasileira, pois as negociações são feitas em dólar. Quando o real está desvalorizado frente ao dólar, a exportação do grão se torna mais competitivas, pois os produtos ficam mais baratos para os compradores estrangeiros. Isso aumenta a demanda internacional, impulsiona as vendas externas e, no caso da soja, podem elevar os preços pagos aos produtores em reais.

E as outras commodities?

Outras commodities como o milho e o boi gordo, a dinâmica é um pouco diferente. As negociações ocorrem na B3 (Brasil, Bolsa, Balcão), os contratos de milho são definidos em reais por saca de 60 kg, enquanto o boi gordo são negociados em  arroba. Em ambos os casos, os preços são influenciados diretamente pela oferta e demanda local e,  indiretamente, pelo câmbio. Embora os valores sejam negociados em reais, a alta do dólar pode incentivar as exportações, tornando esses produtos mais competitivos no comércio internacional, de forma semelhante ao que ocorre com a soja.  

A B3 também possibilita a negociação de outras commodities, incluindo a própria soja. Neste caso, os preços são espelhados das cotações realizadas na CBOT, ajustadas para o mercado brasileiro.

Gestão de riscos

Uma ferramenta importante de gestão é o hedge, que protege os produtores contra quedas de preços durante a safra e, ao mesmo tempo, permite aproveitar as altas, caso ocorreram. A crescente sofisticação das operações financeiras na B3 tem incentivado o uso dessa estratégia, especialmente em períodos de alta volatilidade, como os observados durante a pandemia de COVID-19

Desde os anos 2000, a B3 passou a modernizar sua infraestrutura de negociação, introduzindo contratos mais elaborados e com mais integração com bolsas internacionais, especialmente com o CBOT. Isso trouxe grande liquidez as operações e atraiu ampla gama de participantes, tanto locais quanto globais. 

Com esse avanço, a bolsa brasileira tem se fortalecido como um centro financeiro estratégico para a  negociação de commodities, acompanhando as principais tendências internacionais e o desenvolvimento de novos produtos. 

O futuro do comércio

À medida que o agronegócio se integra ao comércio global, a sofisticação das operações financeiras se torna essencial para a competitividade. A transformação da B3 em um hub financeiro reflete o crescimento do país como exportador e o  papel cada vez mais relevante  dos investidores internacionais no mercado brasileiro.

Mais do que perguntar se o preço da soja irá subir ou cair, o setor precisa se questionar: “Estamos protegendo nossas margens?” “Nossos custos estão sob controle?” “Nossa gestão de risco é eficiente?” As respostas para essas perguntas vão além da especulação sobre o preço, determinando o futuro do grão e da liderança do Brasil no setor. 

Guilherme Legnani Galan é Zootecnista formado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), onde também concluiu o Mestrado em Zootecnia, com foco em produção animal. Atualmente, é professor no Centro Universitário Integrado de Campo Mourão, ministrando disciplinas como Economia Rural, Mercado e Comercialização Agrícola, Administração do Agronegócio e Socioeconomia e Agronegócio. Além disso, é diretor na Valor Rural, empresa especializada em gestão de indicadores econômicos e zootécnicos para a agricultura e pecuária.

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Maurício Moraes

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Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Dirceu Ferreira Junior

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COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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