Setembro 24, 2021
Por Marcos Panassol e Maurício Moraes
É notória a evolução do agronegócio brasileiro nas duas primeiras décadas deste século. Segundo dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), as exportações dos produtos do agronegócio saltaram de US$ 20,6 bilhões no ano 2.000 para US$ 100,8 bilhões em 2020 – um aumento de quase 400%.
E de acordo com levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o agronegócio garantiu o superávit da balança comercial brasileira com participação de 48% das exportações totais do país e representou 26,6% do Produto Interno Brasileiro (PIB) em 2020. Esses números demonstram o potencial do setor na economia e o papel do Brasil como fornecedor sustentável de alimentos, bioenergia e outros produtos no cenário global.
Ao longo desses últimos 20 anos, ocorreram diversas transformações no uso de tecnologias, como organismos geneticamente modificados, agricultura de precisão, irrigação, avanço na mecanização agrícola, plantio direto na palha, integração lavoura-pecuária-floresta, uso de softwares na gestão, entre outros. Isso foi possível com pesquisa, desenvolvimento, formação e capacitação de profissionais, que adquiriram novas habilidades para liderar essas disrupções.
Um exemplo de mudança em larga escala ocorreu no setor sucroenergético, com a mecanização da colheita da cana-de-açúcar, que deixou de ser queimada e colhida manualmente, para adotar padrões de produção mais sustentáveis e digitais. Essa transição foi relativamente rápida. A participação da colheita mecanizada no Brasil passou de 37% em 2008 para 89% em 2019. Considerando somente a região Centro-Sul, que representa cerca de 90% da moagem de cana do país, a taxa atual é de 97%, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Esse avanço trouxe impactos positivos, como o aumento da produtividade, a redução das emissões de gases do efeito estufa (GEE) e a melhoria nas condições de trabalho. Também reduziu a necessidade de funcionários realizarem determinadas atividades rotineiras, levando trabalhadores com baixo nível de escolaridade a passarem por um processo de capacitação para atender à demanda por profissionais mais qualificados. São eles mecânicos, motoristas e operadores, entre outros.
A pandemia de covid-19 acelerou essa transformação, ao provocar diversas mudanças no ambiente profissional e demandar novas habilidades e competências.
Esperanças e temores 2021, pesquisa da PwC Brasil (Fonte: PwC)
No agronegócio, as ferramentas digitais trazem ganhos de produtividade, por meio do uso de equipamentos que viabilizam a identificação de problemas, doenças e pragas com base em análises de dados de clima e de solo. Desta forma, as fazendas têm acesso a informações precisas sobre o manejo agronômico da lavoura e a comercialização passa a ser feita por e-commerce, marketplaces e plataformas de negociação on-line.
Em relação à mecanização, já é possível observar o uso de tratores autônomos, robôs que fazem colheita e drones para diversas aplicações, como avaliação de imagens e pulverização. Outras tecnologias integradas, como inteligência artificial e internet das coisas, geram mapas e sensores que ajudam a tomar as melhores decisões para otimizar as atividades relacionadas à produção agropecuária. Diversas novos players (como as agtechs) estão criando e desenvolvendo modelos disruptivos para atender às novas demandas do mercado agrícola.
Essa transformação exige dos profissionais novas habilidades para enfrentar os desafios da automação, deixando muitas pessoas temerosas de perder o emprego. Uma pesquisa global da PwC realizada em 2021 com 32.500 trabalhadores aponta que 60% estão preocupados com o fato de a automação estar colocando muitos empregos em risco e 39% acreditam que seu trabalho provavelmente se tornará obsoleto em cinco anos.
Ao mesmo tempo, a pesquisa revela que os trabalhadores querem se requalificar: 40% responderam que melhoraram suas habilidades digitais durante a pandemia; 77%, que estão prontos para aprender novas habilidades ou fazer uma reciclagem completa; 74% veem o treinamento como uma questão de responsabilidade pessoal; e 80% estão confiantes em poder se adaptar às novas tecnologias adotadas em seus locais de trabalho.
Esperanças e temores 2021, pesquisa da PwC Brasil (Fonte: PwC)
Se por um lado os trabalhadores têm interesse em buscar a requalificação, por outro, as disparidades no acesso a treinamento permanecem. Aqueles que mais precisam de habilidades digitais ainda são os menos propensos a obtê-las.
Se essa tendência continuar, corremos o risco de aumentar a exclusão digital. Por isso, é preciso criar oportunidades mais inclusivas de upskilling – termo em inglês para requalificação e desenvolvimento de novas habilidades.
Segundo relatório da PwC desenvolvido em colaboração com o Fórum Econômico Mundial, o upskilling será fundamental, mas há desafios como a desconexão entre programas de educação atuais e as competências que os profissionais carecem hoje e precisarão no futuro.
O potencial de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) global com o upskilling é de US$ 6,5 trilhões até 2030, desde que eliminadas as lacunas de competências nos diversos setores de atividades dos diferentes países e regiões.
Ainda segundo o estudo, ao capacitar os profissionais com as novas habilidades requeridas para atuar nesse novo cenário de tecnologias digitais, a estimativa é atingir um aumento de 4,7% no PIB do agronegócio global até 2030, considerando como base preços e estimativas de 2019.
Isso demonstra que o aperfeiçoamento do conhecimento por meio do upskilling pode desencadear um círculo virtuoso. Quanto melhor forem as habilidades, maiores as chances de fazer um trabalho diferenciado, que vai gerar oportunidades para continuar desenvolvendo novas habilidades.
O agronegócio brasileiro apresenta todas as condições para se consolidar como fornecedor global sustentável de alimentos, bioenergia e outros produtos agrícolas, uma vez que tem disponibilidade de terras, relevo adequado, climas favoráveis, ferramentas tecnológicas e talentos – que certamente serão alavancados com o upskilling.
Maurício Moraes, sócio e líder de Agribusiness da PwC Brasil
Marcos Panassol, sócio e líder de Digital Upskilling da PwC Brasil