O futuro do agronegócio ditado pelo consumidor para o pós-pandemia

Praticar a sustentabilidade empresarial já não é mais uma vantagem competitiva, mas uma obrigação das empresas

Setembro 23, 2021

Por Alexandre Rangel

Não é novidade que o agronegócio está em mudança, se mostrando cada dia mais jovem e ávido por tecnologia e inovação, visando o aumento da produção agrícola atrelada à sustentabilidade. Com a pandemia da covid-19, foi possível observar a tendência também entre os consumidores de buscar uma alimentação de melhor qualidade.

Um estudo recém-divulgado pela EY-Parthenon, braço de consultoria estratégica da EY, mostra que 89% dos brasileiros passaram a consumir mais ou a mesma quantidade de alimentos frescos e 35% pretendem investir ainda mais nesse tipo de alimentação, ajudando a aquecer o mercado das foodtechs.

Esse mesmo consumidor também começou a se preocupar com a sustentabilidade, sendo este o critério mais importante a ser levado em consideração nas decisões de compra para 66% dos consultados na pesquisa. E 48% deles, inclusive, já sinalizam alguma disposição em pagar mais por bens e serviços sustentáveis. É algo demonstrado também quando perguntados sobre o quanto as mudanças climáticas e ambientais serão prioridade na forma como os brasileiros vivem e consomem, sendo algo relevante para 57% deles.

Isso, de certa forma, ajuda na ascensão do movimento ESG (Environmental, Social and Corporate Governance) no Brasil, com um número crescente de facilitadores no mercado, entre empresas e startups que auxiliam na implantação dessas práticas.

Mudanças no clima e no mindset

O aumento do desmatamento, considerado proveniente, principalmente, da abertura de novos pastos para pecuária, deve tornar ainda mais importante a procura por carnes certificadas, de gado que não foi criado em áreas degradadas.

A ampliação da rastreabilidade na pecuária brasileira é uma tendência para a criação de uma imagem mais positiva do setor, ao garantir que as práticas vigentes na produção tenham impacto socioambiental positivo. Com isso, o blockchain pode ser um aliado na garantia de origem dos produtos, trazendo transparência a toda a cadeia produtiva e uma diferenciação para o produtor no mercado.

Quando perguntados sobre a percepção sobre questões climáticas, 37% dos brasileiros responderam que promover o uso sustentável dos ecossistemas e preservar a biodiversidade era o tópico mais relevante, enquanto 27% demonstraram dar maior relevância às mudanças climáticas e seus impactos.

Existe hoje uma crescente mudança no pensamento dos consumidores, que demonstram estar mais preocupados com a pegada ambiental que a compra de determinado produto está causando. Por essa razão, 79% consideram que as companhias e organizações deveriam gerar resultados sociais e ambientais positivos.

Na agricultura, as questões ambientais vêm sendo trabalhadas também com a utilização de agricultura de precisão, que permite que se produza cada vez mais com menos insumos, sem alterar a área plantada.

Além disso, os consumidores mais conscientes sobre os problemas ambientais que hoje afetam o mundo acreditam que a redução das emissões de gases de efeito-estufa (GEE) é a iniciativa mais importante que as empresas deveriam adotar. Isso se traduz em uma tendência de procura por certificações ambientais, que demonstrem a luta pelo impacto ambiental positivo.

Mercado de créditos de carbono

Desde a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1997, a busca pela sustentabilidade foi impulsionada por meio de metas de redução das emissões dos gases de efeito-estufa.

Em 2015, foi assinado o Acordo de Paris, com o qual essas metas foram estendidas para mais de 190 países, e chamadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, Nationally Determined Contribution).

Para estimular a sustentabilidade, foi criado um mercado de créditos de carbono, o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. E, por meio dele, os países que emitem menos são premiados, com penalizações sendo aplicadas aos demais. Trata-se de um estímulo para as empresas neutralizarem ou reduzirem suas emissões de GEE e auxiliarem na mitigação das mudanças climáticas.

Hoje, há fintechs ambientais que facilitam as transações no mercado de carbono, como a Moss, que vende créditos de carbono para empresas que queiram neutralizar suas emissões. 

No agronegócio, o sequestro de gás carbônico pelos canaviais gera os Créditos de Descarbonização de Biocombustíveis (CBIO), estruturados pela Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), que também delimita metas para as companhias participantes do programa, visando a sustentabilidade do setor.

É notável que as pessoas estão mais atentas às mudanças climáticas, assim como o agro está se adaptando para a melhoria de seus processos, em linha com a exigência dos consumidores por produtos e serviços com as melhores práticas socioambientais.

As vantagens de ser sustentável

Além de contribuir para a imagem da empresa, as práticas sustentáveis ajudam na redução de custos operacionais dos negócios agrícolas. Práticas como reciclagem, agricultura de precisão e redução do uso de água e insumos contribuem para a otimização nos processos.

De acordo com o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) de 2018, 91% das companhias consideram os riscos e as oportunidades apresentados pela mudança do clima em seus processos de planejamento estratégico.

Praticar a sustentabilidade empresarial para criar uma imagem positiva da empresa perante o consumidor está cada vez mais deixando de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma obrigação.

As empresas do agronegócio que não quiserem ficar atrás da concorrência deverão tratar a sustentabilidade como prioridade. E a solução pode estar na tecnologia. O vasto ecossistema de agtechs será um grande aliado na busca por práticas sustentáveis, uso racional dos recursos, monitoramento e rastreabilidade, itens essenciais nessa jornada.

Alexandre Rangel é sócio líder de consultoria para o setor de Agronegócios da EY

Contatos

Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Siga-nos