Dezembro 9, 2021.
Por Miguel Assunção
O papel das pessoas na transformação digital das organizações é central, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora. Acreditamos que as empresas que conseguem colocar em prática essa transformação se apoiam em três grandes pilares: propósito, obsessão pelo cliente e abordagem ágil.
No caso do propósito, as empresas capazes de passar ao mercado a razão de sua existência terão mais sucesso do que aquelas que apenas falam sobre o que fazem, produzem e vendem. Uma vez que uma organização define qual é o seu propósito, ele deve ser comunicado de forma clara, honesta e consistente aos clientes e incorporado como uma parte central de sua experiência.
Em relação ao segundo pilar, a obsessão pelos clientes, é por meio dos dados estruturados que podemos avançar para conhecê-los melhor. No setor de agronegócio, por exemplo, todos os agricultores querem receber suas sementes e insumos na hora certa. Isso faz com que as cadeias logísticas necessitem de uma integração de dados e processos cada vez mais maduros e precisos. A digitalização permite que mais decisões sejam tomadas fora da planta, mas a oportunidade mais significativa, no longo prazo, é usar a tecnologia para reavaliar como o trabalho é feito, quem o faz e onde.
Por fim, toda a integração de dados e tomadas de decisão seriam muito morosas dentro de uma estrutura rígida, com muita hierarquia e necessidade de validações por diversos níveis. Uma abordagem ágil alinha os anseios dos clientes e dos colaboradores à necessidade de gerar valor.
Mas, na prática, a realidade ainda é bem diferente. As empresas vivem o dilema de executar a rotina do dia a dia, entregar os resultados necessários, desenvolver novas capacidades e direcionar iniciativas que vão gerar valor no médio prazo. Um enorme desafio de cultura, liderança, conhecimento e modelo de gestão.
Por obra de uma série de conceitos, estamos sendo levados a migrar do paradigma de “vender nossos produtos para alguém” para “resolver determinado problema para um grupo de clientes específico”, o que é positivo, mas nem sempre fácil de executar. E quando falo de conceitos, me refiro a ideias como:
- Customer Centricity: o consumidor no centro
- OKR: do inglês Objectives and Key Results, ou objetivos e resultados chave, que propõe um sistema de engajamento dos funcionários em torno de metas mensuráveis
- Mundo BANI, do acrônimo em inglês Brittle/ Anxious/ Non-linear/ Incomprehensible — ou frágil, ansioso, não-linear e incompreensível, em português. Este acrônimo foi criado pelo antropólogo e futurista americano Jamais Cascio no início dos anos 2000 para designar o mundo em que vivemos hoje. Ele se contrapõe ao mundo VUCA, dos anos 1980, tido como Volatile/ Uncertain/ Complex/ Ambiguous — ou volátil, incerto, complexo e ambíguo, em tradução para o português.
Felizmente, o que as empresas exponenciais têm em comum são pessoas engajadas, que fazem toda essa transformação conceitual acontecer. Mas com qual dificuldade? É fato que estimular o desenvolvimento de um conjunto de comportamentos para uma abordagem mais ágil, como flexibilidade e rapidez, é mais simples do que criar mecanismos para que isso ocorra na prática.
Por exemplo, em uma única tomada de decisão, às vezes é necessário preencher diversos controles e levar a pauta ao Conselho antes de bater o martelo sobre qual caminho seguir. Há aí uma desconexão entre o propósito e a prática, o que é temerário para a inovação, a criatividade e a transformação digital acontecerem no dia a dia.
Não há dúvidas de que os esforços de modernização com as novas tecnologias são importantes e vieram para ficar, a questão é entender que eles são apenas peças integrantes do quebra-cabeças para o desenvolvimento das companhias na Era Digital. Isso porque o sucesso delas também depende do talento humano permanecer no centro das estratégias.
Conforme as ferramentas e os processos necessários à cadeia digital de suprimentos continuam evoluindo, os profissionais mais habilidosos tornam-se essenciais. Hoje, espera-se que equipes remotas e bastante distribuídas trabalhem juntas e trabalhem bem. Vale dizer, portanto, que quem tem visão de futuro vai tirar proveito das lições aprendidas com a pandemia.
Diante desses desafios, e da iminente automação de alguns processos acelerada pela transformação digital, o foco precisa estar não apenas no cliente, mas no desenvolvimento e treinamento do colaborador para ajudar a garantir o sucesso das empresas.
A pesquisa Learner Intelligence Report, da Emerald Works, mostra que os colaboradores estão cientes do papel que a requalificação terá em suas carreiras, com 80% deles indicando que fazer um trabalho melhor e mais rápido é sua principal motivação.
A aprendizagem deve ser, portanto, acessível e aplicável ao contexto dos trabalhadores. Já está provado que integrar conhecimento e trabalho maximiza as chances de as pessoas reterem as informações de que precisam para concluir com êxito suas tarefas conforme suas funções evoluem.
Novos conhecimentos são essenciais para que as empresas se adaptem ao futuro. Portanto, o ideal é construir uma cultura em que o aprendizado contínuo seja inevitável. E, para que sua absorção seja bem-sucedida, as áreas de treinamento e desenvolvimento precisam conduzir essa mudança.
Os dados e a inteligência artificial também podem ser aproveitados para o treinamento personalizado e voltado aos desafios que cada profissional está enfrentando atualmente, observando padrões nos seus hábitos de trabalho, tais como horários de envios de e-mails e a organização da agenda de reuniões e eventos na companhia.
Além dos pontos já citados, vale se atentar para a necessidade de uma estrutura organizacional que permita guiar os esforços e tomadas de decisão com fluidez e agilidade, que faça a gestão da mudança conectada a um propósito, que olhe para a experiência do colaborador e a mobilidade atrelada ao conceito de anywhere office (o escritório em qualquer lugar) integrado às nossas vidas.
Tais direcionadores são importantes uma vez que garantem a eficiência e engajamento das pessoas, colocando-as no centro da transformação. As organizações que têm conseguido os resultados desejados vivenciam em seu dia a dia um modelo que migrou o olhar dos processos para as pessoas, da hierarquia para o auto-organizado, de trabalhos solo para projetos colaborativos e de um planejamento rigoroso para a experimentação.
Miguel Assunção é sócio de People Advisory Services da EY, com mais de 15 anos de experiência profissional nas áreas de consultoria, gestão estratégica de pessoas e resultados.
Seus projetos mais relevantes estão centrados em soluções de agile transformation, planejamento estratégico, governança, desdobramento de metas (OKR), gestão de processos e orçamentária. Nas práticas de gestão de pessoas soluções de gestão de cultura, employee experience, gestão de competências, treinamentos e remuneração variável.
Antes da EY, foi sócio da Falconi Consultores de Resultados e co-fundador da Gemte Consulting e mentor de startups. É formado em Administração de Empresas pela Uni-Facef, com especialização em Finanças pelo Insper, pós-graduação e especialização em Empreendedorismo e Inovação pela ESPM e MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios pela FGV-SP.