Como a inovação social pode mudar a paisagem e a forma de fazer negócios

Para além da dimensão econômica, a perspectiva territorial permite às cadeias do agronegócio, e às comunidades que dependem dela, evoluírem

Agosto 19, 2021

Por Guilhermina Cayres e Clarissa Magalhães 

Desde as décadas finais do século XX, o conceito de desenvolvimento vem agregando as dimensões ambiental e social, para além da dimensão econômica. 

Esse desenvolvimento multidimensional deve proporcionar o uso responsável do meio ambiente, promovendo e valorizando a gestão da biodiversidade, além do acesso mais equilibrado aos chamados recursos de bem comum, recursos naturais que são compartilhados entre diversos agentes sociais. 

Também deve proporcionar uma melhor distribuição das benesses advindas dos processos econômicos, como a redução da pobreza e o aumento do bem estar das populações locais. A perspectiva territorial nos permite verificar se essas dimensões estão andando de mãos dadas.

O agro e seu contexto

As áreas e plantas agroindustriais estão alocadas em territórios, recortes geográfico-espaciais onde acontecem simultaneamente processos sociais, econômicos e ambientais. Ali, também são sentidos avanços e limites do desenvolvimento, especialmente pelos impactos socioeconômicos e ambientais positivos e negativos de que essas atividades decorrem. 

Assim, o setor agro estabelece relações diretas com elementos territoriais endógenos, ao interagir com populações e organizações locais, tradições culturais de apropriação e uso do espaço e dos recursos disponíveis, o bioma que caracteriza o território, as bacias hidrográficas que o abastecem, as infraestruturas que o perpassam. 

As formas como essas interações se dão na esfera territorial são importantes indicadores sobre em que medida os avanços econômicos proporcionados pelas atividades produtivas de grande porte estão alinhados com avanços ambientais e sociais.

Um olhar sobre o Matopiba

O Território Matopiba foi criado em 2015 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, junto com seu Plano de Desenvolvimento Agropecuário. É conhecido como Fronteira Agrícola, pois resulta do expressivo crescimento das exportações de produtos agrícolas e agroindustriais, desde a década de 1990. Teve papel protagonista no incremento da produção das chamadas commodities no Brasil, na passagem do milênio, quando o país experimentou um crescimento estrondoso nas exportações agroindustriais, impulsionado por políticas internas de substituição de importações. 

De acordo com a Embrapa, o Matopiba é formado pelos domínios do Cerrado, na confluência dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. São 337 municípios, agrupados em 31 microrregiões perfazendo uma área de cerca de 73 milhões de ha de produção de grãos, destaque para a soja. O Território possui também grande quantidade de terras atribuídas, cerca de 22% do total, entre Unidades de Conservação, Terras Indígenas e Quilombolas e Assentamentos Rurais.

A nova matriz produtiva proporcionou importantes melhorias, como a modernização tecnológica, o aumento do PIB dos Estados componentes, a ampliação da malha viária e de infraestruturas de logística, além da conformação de novas cidades de médio porte. 

Entretanto, esse progresso trouxe também consequências no sentido inverso, como grandes ondas de desmatamento para conversão de áreas, concentração da posse da terra, desorganização da agricultura familiar e diminuição da diversidade produtiva. Assim, uma pergunta relevante seria: como expandir o conjunto de melhorias que o setor privado de grande porte promove no Território, para outros setores produtivos, em especial públicos da agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais? 

Uma resposta possível seria o aporte de investimentos públicos e privados que fortaleçam iniciativas de inovação social já existentes na esfera territorial, para que andem lado a lado com a inovação tecnológica provocada pelo setor agro, ou promovendo e consolidando políticas públicas que assegurem o acesso à inovação para esses públicos. 

A inovação social e a identidade territorial

Considerando que a inovação social é um processo colaborativo e multidimensional que promove a autonomia e a valorização sociocultural de grupos sociais, novos arranjos locais e redes colaborativas são possíveis, a partir de necessidades ou problemas em escala territorial. 

A abordagem da inovação social permite que a agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais sejam percebidos como categorias sociais complexas e multi diversas, valorizando seu modo de vida e sua relação com a natureza. 

Com o crescente interesse nacional e internacional por sistemas agroalimentares que resgatam saberes locais com reconhecimento de origem, as práticas tradicionais deixam de ser percebidas como impeditivo do avanço tecnológico para uma perspectiva que agrega o valor da identidade territorial. 

Desta forma, o território deixa de ser palco de disputas entre categorias sociais e se torna o espaço de enfrentamento de problemas socioambientais comuns, onde o recorte de cadeia ou de sistema de produção é substituído por desafios de inovação orientados para a geração de valor e transformação social.  E já há iniciativas em andamento nesse sentido.

No Maranhão, por exemplo, a inovação social avança para uma política pública que promove o desenvolvimento em escala territorial. Em março de 2021, foi formalizado acordo de cooperação técnica entre Embrapa, secretarias estaduais (Ciência, Tecnologia e Inovação e Direitos Humanos e Participação Popular) e a startup Conecta Brasil 360, com o objetivo de desenvolver metodologia de implantação, monitoramento e avaliação de estratégia de inovação social no Estado. 

Ao assumir essa metodologia como política pública e ampliar a ação para outras comunidades rurais, a ciência se associa ao saber tradicional em um processo de inovação aberta. Os riscos inerentes à inovação social são altos, é verdade, porém mitigados pela convergência entre conhecimentos técnico-científicos e tradicionais, que requerem ciclos de planejamento e gestão aliados às tecnologias.

É uma mudança de paradigma que demanda protagonismo, autonomia, articulação e negociação de atores locais na busca de soluções tecnológicas, em redes de colaboração que geram produtos, bens e serviços que valorizam o território como o locus do desenvolvimento.

Clarissa Magalhães é doutora em Planejamento e Gestão do Território pela Universidade Federal do ABC, mestre em Energia, Área de Concentração Ambiente e Sociedade e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas. Atuando principalmente nos seguintes temas: desenvolvimento territorial, coesão social, coalizões sociais, aprendizagem social, certificação florestal e licenciamento ambiental.

Guilhermina Cayres é graduada em Agronomia, tem mestrado em Planejamento do Desenvolvimento e Doutorado em Desenvolvimento Socioambiental e atualmente faz pós-graduação no curso de Musicoterapia. Pesquisadora da Embrapa, está sediada em Cocais (MA) e trabalha na área de agricultura familiar e desenvolvimento sustentável. Atua em projetos interdisciplinares e em arranjos institucionais com empreendimentos coletivos. Tem experiência nos seguintes temas: agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais, planejamento e desenvolvimento regional, sistemas sociais, participação, intervenção, inovação
social, articulação e gestão institucional, certificação e interações sociais no manejo florestal.

Contatos

Maurício Moraes

Maurício Moraes

Sócio e líder do setor de Agribusiness, PwC Brasil

Tel: 4004 8000

Dirceu Ferreira Junior

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COO do PwC Agtech Innovation e sócio, PwC Brasil

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