Outubro 21, 2021.
Por David Morrell e Maurício Moraes
Dezoito meses após a pandemia de covid-19 frear a maioria das economias do mundo, vemos uma realidade de novas prioridades e comportamentos das pessoas – sejam elas clientes, colaboradores ou fornecedores. Esse contexto acelerou e materializou uma transformação humana e digital que já estava em curso, que ocorre de fora para dentro das organizações e que renova e inova nossa forma de interagir no mercado.
Enquanto para as pessoas essa transformação é praticamente natural (direção que já era prevista, embora em outra velocidade), as organizações precisam preocupar-se com suas próprias disrupções.
A pesquisa A incerteza está de volta, da PwC, revela que somente 5% das organizações são consistentemente vencedoras no contexto da inovação digital, obtendo valor significativo de seus investimentos em todas as áreas avaliadas – crescimento, lucro, experiência do cliente, pessoas, entre outras. Chamamos essas organizações de Transcendentes.
Elas capturam uma margem de lucro 17% superior à média dos mercados em que atuam, e colhem outros frutos: 98% das entrevistadas na pesquisa afirmam que não temem a extinção e 76% dizem extrair valor significativo de novas maneiras de trabalhar.
Os motores das empresas transcendentes (Fonte: A incerteza está de volta, Pesquisa Global Digital PwC 2020)
As organizações transcendentes no agro
Esse raciocínio se aplica às organizações do agronegócio: a inovação traz o potencial de aumentar significativamente os resultados do setor e de transformar o sistema de maneira ímpar, reduzindo assimetrias de informação, custos de transação e melhorando a vida das pessoas envolvidas.
É nesse contexto que o Brasil chama a atenção do mundo. Como o 3o maior exportador de produtos agrícolas, a utilização de tecnologias inovadoras aparece como um dos pilares para o crescimento acelerado nos próximos anos.
Não faltam inovações tecnológicas no agronegócio no Brasil. Temos startups e soluções que envolvem inteligência artificial no campo, frotas de drones, ressonância magnética aplicada, redes sociais específicas, além de iniciativas voltadas ao cuidado com o ambiente e redução de carbono. Ampliando a produtividade e o acesso à informação, tudo isso pode proporcionar benefícios significativos aos negócios.
Mas o gargalo não está na tecnologia em si. Com o ambiente dinâmico em que vivemos nos últimos anos, o maior desafio é encontrar as soluções certas para os problemas mais importantes. E, antes disso, o desafio é identificar quais são os problemas mais importantes para resolver.
Direcionando os esforços
Por exemplo, quais são as novas prioridades do agricultor? Com o crescimento do engajamento digital nos últimos 18 meses, será que ele pretende utilizar ferramentas ou fazer parte de programas que não eram tão valorizados antes?
Novos modelos de negócio, plataformas digitais para comercialização de produtos, programas voltados à fidelidade, incentivos diferenciados ou maior conexão da cadeia como um todo teriam aceitação ainda mais alta considerando os novos comportamentos? E ações voltadas para capacitação, recrutamento ou mesmo maturidade digital?
Há muitas possibilidades e muitos dados a processar, e eles crescem exponencialmente, o que pode aumentar a assimetria entre as organizações que têm meios para processá-los e as que ainda não os têm.
Pensemos sobre o desafio da própria conexão no campo no contexto dessa transformação: nosso país tem dimensão continental e, enquanto determinadas regiões estão discutindo os benefícios do 5G e quais serviços e soluções essa tecnologia viabiliza, mais da metade dos estabelecimentos rurais não têm sequer acesso à internet.
Precisamos contar com políticas e iniciativas públicas e privadas para que o desenvolvimento e o uso da tecnologia sejam inclusivos e conscientes nas mais diversas áreas do agronegócio brasileiro, assim como em outras indústrias.
Modelo operacional de inovação
Também é importante que cada organização do agronegócio brasileiro defina um modelo operacional de inovação adequado ao seu contexto, considerando seus desafios, tamanho, maturidade, área de atuação e tempo de mercado. E esse modelo deve tratar aspectos práticos da organização – como processos, indicadores e governança – de maneira perene, recorrente e adaptada a cada organização.
A empresa precisa colocar no centro da estratégia as “personas” adequadas ao negócio: o grande pecuarista, o gestor, o pequeno produtor. Já passamos do tempo de justificar a inovação tecnológica pela própria tecnologia. A inovação precisa resolver um problema específico de alguém específico e precisamos de um modelo estruturado que faça isso acontecer de maneira recorrente e tempestiva.
Esse modelo deve considerar o engajamento da organização com o ecossistema pertinente aos desafios de negócio priorizados. No longo prazo, o engajamento desestruturado e pontual pode desperdiçar uma energia importante e aumentar a dificuldade de identificar as soluções mais relevantes.
De acordo com o Radar AgTech 2020/21, o Brasil tem mais de 1.574 startups voltadas ao agronegócio (e esse número vem aumentando) – por isso, é muito fácil se perder no meio de tantas possibilidades e depois falhar em gerar ou demonstrar os resultados concretos do engajamento com os outros players do ecossistema.
Por fim, não podemos nos esquecer que as organizações precisam encontrar as pessoas certas para pilotar o modelo operacional da inovação. A força de trabalho do futuro não pode ser uma ameaça, mas um impulsionador de uma maneira nova e simplificada de conduzir os negócios. Isso requer uma mentalidade focada na experiência do colaborador.
Não é sobre acúmulo de conhecimento, mas sobre desenvolvimento de competências, compreensão e atitude ágil para responder ao novo contexto. Afinal, as pessoas vêm em primeiro lugar nessa transformação que é primeiramente humana, e depois tecnológica.
Maurício Moraes, sócio e líder de Agribusiness da PwC Brasil
David Morrell, sócio e líder de consultoria em CX e Inovação da PwC